
JM sob a figueira de Sidarta

Nos jardins do Mahabodhi
VÍDEO:
Clique Aqui
e veja
monges
tibetanos entoando mantras junto à Arvore da Iluminação - a
Bodhi Tree |
O
coro de vozes graves ecoa no meio da tarde e a cidadezinha
empoeirada parece hipnotizada pela sinfonia. Om mani padme hum, Om
mani padme hum (pronuncia-se Omêni-péme-um), repetem sem
cessar milhares de monges sentados no chão, pernas cruzadas,
ocupando os jardins em torno do
templo Mahabodhi. Suas vestes vinho e alaranjada, as cabeças
raspadas, as bandeirinhas multicores penduradas em varais, os fiéis
praticando prostrações, a fumaça e o cheiro de incenso
espalhados pelos quatro cantos completam esse quadro de som e
cores, quase etéreo, no lugar mais sagrado do budismo. Que sorte!
Cheguei a Bodhgaya em um momento especial: o da cerimônia final
da visita da Cagiupay Sangha, evento anual que reúne
monges e exilados tibetanos – e, não raro, o próprio Dalai
Lama – ao pé da Bodhi Tree, a figueira sob a qual o príncipe
Sidarta meditou e alcançou a iluminação.
Entre
novembro e fevereiro, Bodhgaya transborda de peregrinos e
turistas, mas não perde o ar de vila pacata, onde se vende frutas
em balaios no passeio central, sempre colorido pela presença de
jovens monges, muitos vindos de outras cidades e países. Centenas
de forasteiros chegam para receber aulas em monastérios alinhados
na rua do templo ou para meditar junto a árvore histórica, atrás
do santuário, eternamente engalanada de faixas e bandeiras
coloridas trazidas por peregrinos. Ali, uma plataforma de cimento
e uma imagem assinalam o lugar exato onde, há 2 500 anos, Buda
mergulhou em profunda introspecção até entender a razão do
sofrimento. E, no seu entorno, um conjunto de placas em mármore
lembram os passos posteriores de Sidarta, numa espécie de via
sacra sem cruz.
Apesar
da multidão, o ambiente transpira paz e tranquilidade. No
Mahabodhi - na verdade uma estupa (relicário ou tumba budista)
cercada de dezenas de outras menores - uma enorme imagem dourada
de Buda é venerada ao mesmo tempo por budistas e hinduístas.
Para os hindus, Sidarta foi uma encarnação de Vishnu, a mesma
divindade manifestada em Rama e Krishna. É possível distinguí-los
pelos ruídos e posturas durante as cerimônias, os budistas
sempre mais parcimoniosos. E, às vezes, pela encrencas no comitê
de administração do templo, onde os hinduístas são maioria.
Nem isso nem o fato de que a figueira cultuada agora não é a
mesma que acolheu o Buda meditante, destruída pelo imperador
Ashoka antes de sua conversão ao budismo, tiram o brilho desse
lugar simbólico e especial. A árvore e o Mahabodi, erguido no século
III pelo mesmo Ashoka, arrependido, e depois dilapidado e
reconstruído no século XIX, fazem parte do patrimônio cultural
da humanidade, protegido pela Unesco. Como no passado, eles
continuam despertando olhares devotos ou admiradores. |