Ano
V // Nº 291
Texto
publicado na edição de 02 de maio de 2000 da
revista Exame.
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A
Capital e o capital
Brasília - 5ª melhor
cidade para negócios
Por JOMAR MORAIS, de Brasília
O Instituto do Coração,
Incor, de São Paulo, solucionou recentemente um
velho problema: o que fazer para assistir
pacientes residentes no interior que precisam de
diagnóstico imediato, mas não podem viajar para
a capital? Graças a um aparelho chamado
eletrocardiógrafo digital, a equipe do Incor
pode agora acompanhar pela Internet exames
realizados em cidades onde ainda não há
cardiologistas. A prescrição do tratamento
também é feita via computador. Tudo bem, tudo
impressionante. O detalhe é que a engenhoca
eletrônica não foi adquirida nos Estados Unidos
nem é obra de um indústria de ponta paulista,
como seria de esperar. Ela foi desenvolvida e
fabricada em Brasília pela Micromed, pequena
empresa de tecnologia médica cujo currículo
ostenta ainda uma parceria com a Nasa. Seu
software Aerograph, que mede o consumo de
oxigênio pelo homem, é utilizado nos ônibus
espaciais da agência americana.
Casos
assim parecem estranhos para quem ainda vê
Brasília apenas como a capital da política, mas
já fazem parte da rotina da quinta melhor cidade
do país para negócios, segundo a pesquisa da
Simonsen Associados. Com um potencial de consumo
de 6 615 reais por habitante - 35% acima da
média das 220 cidades pesquisadas pela Simonsen
-, e um nível de qualidade de vida dos mais
elevados do país, Brasília está se
transformando rapidamente num pólo de serviços
e tecnologia.
No
último dia 21 de abril, foi inaugurado o
edifício futurista desenhado pelo arquiteto
paulista Ruy Ohtake para abrigar 448 flats do
Complexo Alvorada, projeto de 150 milhões de
reais, do grupo brasiliense Paulo Octávio.
Administrado pela rede de hotéis Blue Tree, o
empreendimento é a primeira grande obra
concluída do chamado Projeto Orla, que até 2005
deve espalhar em torno do lago dezenas de hotéis
de luxo, museus, restaurantes e marinas. Na área
central ganha corpo um megacomplexo
hoteleiro-comercial, o Brasil XXI, em cujas seis
torres, O Brasil XXI,onde funcionarão, a partir
de 2002, flats, escritórios, um hotel da rede
espanhola Meliá e o maior centro de convenções
da região, com 3 000 lugares.
"Brasília
importa 85% do que consome e só é
autosuficiente em hortaliças", diz Lázaro
Marques Neto, secretário de Desenvolvimento do
Distrito Federal. "É um campo imenso para
bons negócios". A cidade conta com um
expressivo contingente de profissionais
qualificados, formado em cinco universidades
locais, não enfrenta problemas no trânsito e
possui uma das melhores estruturas de educação
e telefonia do país. Cerca de 40% dos
brasilienses pertencem às classes A e B,
responsáveis por 71% das despesas de consumo.
Numa época emque qualidade de vida é uma
variável influente para a localização das
empresas, tais características contribuíram
para o surgimento, no Distrito Federal, de 80
empresas especializadas no desenvolvimento de
tecnologias.
A
Acrom é uma delas. Fundada por seis
especialistas em espionagem eletrônica do antigo
SNI, a empresa desenvolveu o único aparelho de
criptografia de voz fabricado no Brasil, o
Voxcript, utilizado em telefones de embaixadas e
no combate à espionagem comercial. Outra
referência é a TBA Informática, maior
representante da Microsoft no Brasil, que faturou
118 milhões de reais no ano passado.
"Nenhuma cidade oferece tantos incentivos
às empresas de tecnologia quanto
Brasília", diz Fernando Teixeira, diretor
da Micromed. "Aqui a alíquota de ISS de
apenas 0,5% e as empresas estão junto do governo
federal, maior comprador de seus produtos."
Fazer
negócio com o governo é uma coisa. Viver da
verba estatal, uma dependência histórica da
cidade, é outra. Dos 4 bilhões de reais de seu
orçamento anual, cerca de 2,5 bilhões vêm dos
cofres do governo federal. Há mais dores de
cabeça. O desemprego atinge 180 000
desempregados, mais de 20% da população
economicamente ativa. E a violência no cinturão
de cidades-satélites é maior,
proporcionalmente, do que em São Paulo e na
Baixada Fluminense, no Riode janeiro, com 19% das
mortes ocorridas por assassinatos. A propósito,
isso explica porque a indústria de equipamentos
de segurança é uma das que mais crescem na
cidade. Em Brasília existem 27 empresas do ramo
que, juntas, faturam 40 milhões de reais.
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