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Ano VI // Nº 295

Texto publicado na edição de 26 de julho de 2000 da revista Exame.

Revolução silenciosa

O Banco da Terra vira um modelo de reforma agrária

Por JOMAR MORAIS, de Acaraú  /  Foto: LUIS MORAIS

Nos últimos dois anos, o cearense José Osmar Muniz, o Vavai, 46 anos, tem vivido momentos de celebridade. Ele já foi visitado por representantes de governos de cinco países, pelo vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina, David de Ferranti, e até o presidente Fernando Henrique Cardoso deslocou-se de Brasília para cumprimentá-lo. Em seu estado, tornou-se comum vê-lo participando de debates na televisão. Descoberto pela imprensa internacional, virou notícia na renomada revista inglesa The Economist.

Vavai é algum especialista que faz previsões sobre os rumos da economia global? Um cientista que encontrou a cura de alguma doença grave? Nada disso. Vavai é apenas um brasileiro sem-terra. Ou melhor, um ex-sem-terra que lidera em Acaraú, a 232 quilômetros de Fortaleza, uma experiência que se tornou referência internacional e ponto de partida para o mais inovador dos projetos do governo federal no campo – o programa Banco da Terra. A meta do governo é mudar radicalmente o conceito de reforma agrária, substituindo a distribuição paternalista de lotes, que estimula a ação de especuladores e a manipulação política, pelo financiamento de projetos concebidos por associações de famílias rurais. Trata-se de uma solução mais afinada com o capitalismo e a competitividade dos dias atuais. Em vez de eternos dependentes de planos e verbas públicas, no novo modelo os sem-terra são convocados a se transformarem em pequenos empreendedores, livres para tocar projetos compatíveis com as suas necessidades.

"Antes eu não tinha futuro, hoje sou um empresário rural", diz Vavai, orgulhoso da nova condição. Como ele, os chefes de outras 14 famílias que, em 1997, se reuniram sob sua liderança para comprar o sítio Curral Velho vivem o impacto de uma mudança radical. Até então, todos ganhavam a vida como meeiros, os trabalhadores que, não tendo terras, arrendam áreas aos proprietários rurais pagando-lhes com metade de tudo o que produzem. "Era uma vida de cão", lembra Vavai. "Nenhum de nós conseguia mais de 60 reais no final do mês e o que sobrava da colheita às vezes nem dava para alimentar a família". Em Curral Velho, a renda média saltou para 250 reais. Se não bastasse o detalhe de pela primeira vez na vida possuírem seu próprio pedaço de chão, os participantes da experiência também surpreenderam com aumentos de produtividade de até 500% e uma rápida melhoria do índice de qualidade de vida, aferido em pesquisa da Universidade Federal do Ceará .

Curral Velho é um projeto piloto. Nasceu como desdobramento de um programa de combate à pobreza do governo cearense, o Projeto São José, por meio do qual os habitantes de pequenas vilas do interior passaram a definir e e executar obras de infra-estrutura, com financiamento e assistência técnica do governo. O sucesso da iniciativa acabou gerando uma outra frente de trabalho, a Reforma Agrária Solidária, que a partir de Acaraú já beneficiou 3 000 famílias rurais Ceará. O laboratório de Curral Velho entusiasmou, sobretudo, os representantes do Banco Mundial, órgão que financia 75% dos investimentos. Durante a visita de Ferranti, no ano passado, eles fizeram elogios ao espírito empreendedor da comunidade e à rapidez com que o empreendimento avançou, superando as metas iniciais. Depois disso, delegações da Suíça, Filipinas, Angola e Moçambique vieram conhecer a experiência e retornaram impressionadas com o que viram.

Com a criação do Banco da Terra, no ano passado, o governo federal resolveu adotar o modelo cearense, reproduzindo-o em outras regiões do pais, por meio de convênios com os governos estaduais, responsáveis pela execução do programa. O Banco da Terra já está presente em 10 estados, inclusive São Paulo. O convênio com o governo paulista, assinado recentemente, deve beneficiar famílias sem-terra da explosiva região do Portal do Paranapanema. Se os cálculos oficiais estiverem corretos, em cinco anos 200 000 famílias em todo o país terão crédito para comprar terras e iniciar empreendimentos no campo.

Isso é pouco? A reposta é sim, se for levado em consideração que existem 2,5 milhões de sem-terra no país e a tensão na área rural continua elevada. Comparado ao que o governo já fez em termos de reforma agrária e, principalmente, aos resultados sociais obtidos até agora, no entanto, ganha peso fundamental no esforço para se encontrar uma solução efetiva para a questão social no campo. Nos últimos seis anos, cerca de 300 000 famílias foram assentadas em 16 milhões de hectares – uma área equivalente ao estado do Amazonas - , mas o velho modelo de distribuição de terras desapropriadas nem de longe conteve a instrumentalização política dos trabalhadores e as invasões de propriedades promovidas pelo Movimento dos Sem-Terra, o MST. Sabe-se que boa parte dos lotes distribuídos acabam sendo entregues a pessoas que não têm qualquer vínculo com o campo e só entraram na fila para especular com as terras doadas. Além disso, em regiões onde não há áreas improdutivas para desapropriação, sem-terras e governos alimentam uma queda de braço em torno de promessas não cumpridas e palavras de ordem que em nada contribuem para resolver o problema dos que realmente precisam de terras para produzir.

A opção pelo Banco da Terra é, assim, uma opção qualitativa e segue no rumo apontado recentemente pelo professor e especialista em sociologia agrária José de Souza Martins, da Universidade de São Paulo, em estudo publicado na Revista de Sociologia, da USP. Segundo Martins, "não é o número de desapropriados ou número de assentamentos em terras desapropriadas ou compradas que definem o perfil da reforma agrária brasileira, sua justeza ou não". Possibilitar uma mudança de mentalidade e oferecer instrumentos para o surgimento de uma agricultura familiar eficiente no país podem contribuir mais rapidamente para conter tensões e melhorar o padrão de vida das populações. E, nesse sentido, a região de Acaraú é exemplar. Comunidades como a de Curral Velho não foram beneficiadas apenas com um lote para cultivar. Além de receberem consultoria técnica permanente, seus membros participam de cursos sobre empreendedorismo, custos de produção e organização social, pontos essenciais para o establecimento de uma nova postura empreendedora. "Fomos treinados para realizar negócios", diz Orlando Julião Souza, líder da comunidade de Alméssega.

O Banco da Terra pode ser também um caminho para se evitar o desperdício de verbas públicas. "O preço da terra e o custo das benfeitorias negociados pela comunidade fica em média 30% abaixo dos orçamentos feitos por órgãos públicos e quase não há desvio de recursos", afirma Josias Farias Neto, diretor técnico do Reforma Agrária Solidária. Na prática, os trabalhadores que recebem financiamentos acabam indo além dos padrões regulamentares, motivados por dois fatores: o fato de possuir a terra e não ter mais a obrigação de dividir a colheita com algum proprietário e a necessidade de tornar o seu empreendimento lucrativo, a fim de honrarem o pagamento do empréstimo.

As 15 famílias lideradas por Vavai, por exemplo, pechincharam e conseguiram comprar os 159 hectares de Curral Velho não por 150 000 reais, como queria o antigo dono da terra, mas por apenas 95 000. Ainda assim 5 000 reais foram pagos com côco, a principal cultura agrícola da comunidade. Um ano depois, apoiado numa produtividade de 15 frutos por coqueiro – na região o normal é obter-se de 2 a 5 frutos por unidade -, e num faturamento de 30 000 reais, o grupo pôde dar um passo à frente: comprou a propriedade vizinha, de 90 hectares, por 30 000 reais, a serem pagos em prestações variáveis conforme a colheita.

Somando empréstimos, financiamento não reembolsável de infra-estrutura e recursos da comunidade, em Curral Velho já foram investidos cerca de 400 000 reais, até aqui gastos com bom senso. Homens que antes aravam a terra com as próprias mãos contam agora com um trator, um sistema de irrigação por microaspersão e uma pequena unidade industrial de farinha de mandioca. Com o resultado do trabalho, 90% das famílias passaram a habitar em casas de tijolo, até há pouco um privilégio de apenas um terço delas, e quase todas adquiriram ou trocaram aparelhos eletrodomésticos, como televisão, geladeira e fogões. O índice de qualidade de vida, medido em estudo do professor Ahmad Saeed Kham, da Universidade Federal do Ceará, PhD em economia agrícola, registrou um aumento de quase 60% em três anos. Os ex-sem-terra de Curral Velho já estão até gerando empregos: de 10 a 40 diaristas costumam ser contratados para trabalhar no sítio, de acordo com a programação de plantio e colheita.

Os problemas também existem. O principal deles, nessa etapa inicial, é o da comercialização da produção. Impossibilitados de chegar aos mercados dos centros urbanos, os pequenos produtores sofrem com os preços baixos impostos por atravessadores e indústrias. Outra dificuldade começa a ser percebida à medida que vai se aproximando o fim da carência para o pagamento dos empréstimos: os juros de 4 a 6% ao ano. Apesar de subsidiados, eles assustam agricultores às voltas com o aumento dos preços de insumos, enquanto não conseguem vender o que produzem a preços compensadores.

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