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Ano IV // Nº 269

Texto publicado na edição de 24 de março de 1999 da revista Exame

Chapéu de couro, vaquejada e... software

Por JOMAR MORAIS, de Campina Grande

No início da década, Campina Grande, segunda cidade da Paraíba, destacou-se no setor de informática brasileiro, ao apostar suas fichas na produção de softwares tipo exportação. Agora começa a colher os primeiros frutos dessa opção, ousada para a época. Atualmente existem programas made in Campina Grande em locais como o Ministério da Defesa da Espanha, o Palácio do Planalto, a Casa da Moeda e mais de 30 bancos brasileiros (entre eles Bradesco e Caixa Econômica Federal), além de um bom número de empresas americanas. Até o final do ano, eles chegarão à China e à Austrália.

No momento, o cartão de visita da informática campinense é o programa para sistemas de informação LightBase for Windows (LBW), uma avançada ferramenta de banco de dados, com recuperação textual e multimídia, desenvolvido pela Light-Infocon, a maior empresa de software da cidade. Com ele é possível associar e recuperar textos, imagens e sons em um único a plicativo, o que o transforma num software de mil e uma utilidades. É esse o programa que está gerenciando informações na Espanha e no Brasil, a um custo 30% menor que o de seus concorrentes, o Cyberfts e o TR Database. A Infocon investiu 4 milhões de dólares no seu desenvolvimento, mas o retorno parece estar garantido. No ano passado, a empresa faturou 2,5 milhões de reais em negócios no Brasil e no exterior. Juntas, as 20 desenvolvedoras de softwares ligadas ao Núcleo Campina Grande da Softex, a associação brasileira de empresas de softwares com interesse em exportação, venderam 25 milhões de dólares no mesmo período - algo em torno de 5% do faturamento das 700 empresas que integram os 20 núcleos da Softex.

"Não há como fugir do mercado externo. Não temos reserva de mercado, mas temos qualidade para competir", diz o diretor de operações da Light-Infocon, Alexandre Moura. Essa visão global permeia até mesmo as empresas menores, como a Hardcode Entertainment, fundada pelos recém-formados em ciência da computação José Antonio Leal de Farias, o Jalf, e César Augusto Santos. Seu primeiro produto, o jogo de ação Mars Conspiracy sairá em dezembro, mas o nome da empresa já consta do catálogo Game Developer, editado na Califórnia, graças à sua participação no desenvolvimento de módulos de jogos americanos. Jalf e César têm dois desafios. O primeiro, real, é conseguir desenvolver com 150 mil dólares um jogo que nos Estados Unidos exigiria investimento de 1 milhão de dólares. O outro é sensibilizar o mercado com um mero artifício de marketing: a home page da Hardcode não exibe uma única palavra em português, a fim de sugerir que se trata de uma softwarehouse do primeiro mundo. "O inglês é uma maneira de driblar o preconceito contra empresas nordestinas", diz Jalf.

Outras pequenas e médias empresas locais partem para o confronto direto com gigantes da área eletrônica, apoiadas no desenvolvimento de softwares avançados. A Apel, indústria paraibana que detém 50% do mercado brasileiro de equipamentos de radiodifusão e sonorização, há quatro anos conseguiu desbancar a francesa Thomson e abocanhar um contrato de 3 milhões de dólares para sonorização de trens da CBTU no Rio de Janeiro. Em 1998, a Apel desenvolveu para as novas estações do metrô de São Paulo um sistema informatizado de sonorização e mensagens pré-gravadas, inédito no continente, que agora pretende lançar no Mercosul. A Zênite, fabricante de controle de acesso e ponto eletrônico, sofisticou a digitalização de seus produtos e acaba de firmar acordo com a Trade Informática, de São Paulo, para uma parceria em torno do HandKey, aparelho de identificação biométrica da americana Recognition Systems que a Trade vai fabricar em Campina Grande.

Até os anos 70, Campina foi um dos principais centros comerciais do Nordeste. Depois tornou-se a maior concentração de indústrias da Paraíba, mas nos últimos anos estagnou. A seca, que impõe à população racionamento de água três vezes por semana, contribuiu para isso. Graças ao fortalecimento do pólo de informática, porém, ali já foram gerados 300 empregos diretos de nível médio e superior. O salário também foi beneficiado. Na Infocon, a média de 2 500 reais está bem acima dos três a quatro salários mínimos da média salarial nas capitais nordestinas.


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