Esta briga não é de puxar a peixeira
A velha rixa entre Ceará e Pernambuco alcançou a temperatura máxima neste final de inverno. Há duas décadas os dois estados disputam com unhas e dentes o segundo lugar na economia nordestina, mas coube ao Ceará , no mês passado, aplicar nos pernambucanos um golpe certeiro que pode decidir o jogo. Após negociar durante oito meses em segredo com o governo cearense, o presidente do grupo alemão Thyssen, Hans Ulrich Gruber, anunciou em Fortaleza a decisão do conglomerado de instalar no Estado uma refinaria de petróleo para produzir 220 000 barris diários, ao custo de 1 bilhão de dólares. Com a refinaria, o Ceará poderá ter seu pólo petroquímico e, assim, reeditar na próxima década a história de sucesso da Bahia, cujo salto econômico foi resultado da implantação, há 20 anos, do Pólo Petroquímico de Camaçari.
O Nordeste ficou pequeno demais para cearenses e pernambucanos? Claro que não. A região, responsável por 15,5 % do PIB brasileiro, está longe de alcançar o ponto de equilíbrio em seu processo de industrialização e os dois estados exibem muitos atrativos ao capital privado. A questão é que nestes tempos de competição acirrada o Ceará parece ter se preparado melhor do que Pernambuco para atuar numa conjuntura em que não bastam subsídios fiscais para atrair investimentos. Conta a seu favor dos a criação de outras vantagens competitivas para as empresas e, sobretudo, uma política de desenvolvimento industrial traçada há 12 anos por empreendedores locais, com focos bem definidos e sem burocracia.
Há quem suspeite de que a exuberância cearense decorre apenas de favores políticos do governo federal - o governador Tasso Jereissati é amigo do presidente da República e peça influente no PSDB, - e de uma azeitada estrutura de marketing montada em Fortaleza. "Por que uma empresa poderosa, mas sem tradição no setor petrolífero, resolve montar uma refinaria no Ceará sem pesquisar as condições dos demais estados da região?", pergunta o secretário de Planejamento de Pernambuco, João Recena. A Thyssen, de fato, só recentemente instalou sua primeira refinaria, na Suíça; ela é tradicional em siderurgia. Diante disso, Recena desconfia de que o anúncio não passa de "reserva de mercado" do grupo alemão e de blefe do governo cearense com objetivo de manter ativos os programas de investimentos federais destinados à construção de uma estrutura portuária, um gasoduto e à importação de energia da hidrelétrica paraense de Tucurí - algo em torno de 1 bilhão de reais. Verdade? Ainda é cedo para afirmar, mas é bom lembrar que agora estamos em Pernambuco, a vítima da investida cearense.
"A conquista da refinaria pelo Ceará foi uma decisão política", aposta o empresário pernambucano Sidney Wanderley da Silva, dono de 9% do mercado nordestino de refrigerantes. "Não há como explicar tecnicamente a decisão", afirma Airton Sinigaglia, gerente geral da Gessy-Lever, multinacional que está implantando sua segunda fábrica no Recife. Pode ser. Mas isso não explica o que os números vêm mostrando há quase 20 anos: o fôlego do Ceará na corrida do PIB, prestes a arrebatar de Pernambuco o segundo lugar regional. Em 1980, o produto cearense foi de 8,73 bilhões de reais contra 12,79 bilhões de Pernambuco. A vantagem pernambucana era de 46,5% sobre o rival. No ano passado, com o PIB do Ceará atingindo 19,47 bilhões de reais, contra 20,68 bilhões de Pernambuco, essa vantagem caiu para pouco mais de 6%. A persistirem nesse rítmo, os cearenses passarão à frente no ano 2 000 e aí será estabelecida uma meta mais audaciosa, segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, Raimundo Viana: encostar na Bahia, cujo PIB de 39 bilhões de reais garante a liderança folgada no Nordeste.
A marcha lenta de Pernambuco é visível também na estatística dos novos empreendimentos industriais. Nos últimos três anos, apenas 52 empresas instalaram unidades produtivas no Estado. Outras 82 tocam projetos de ampliação e modernização de plantas já existentes. No mesmo período, entraram em funcionamento no Ceará 140 novas indústrias e outras 174 iniciaram a construção de suas unidades. No semestre passado, levantamento feito pela economista Denise Rodrigues, do BNDES, indicava que as intenções de investimentos privados, entre 1997 e 2002, eram de 4,3 bilhões de reais no Ceará, quase o dobro dos 2,4 bilhões em Pernambuco. A decisão da Thyssen pode aumentar essa distância.
A industrialização do Nordeste começou pelo território pernambucano e é lá que ainda hoje se encontram o parque industrial mais diversificado, o melhor sistema de escoamento e a maior concentração de mão-de-obra qualificada da região. O Estado também exibe vantagens geográficas em relação ao Ceará, como a sua localização central e uma vasta extensão de terras férteis. Os cearenses, ao contrário, estão quase que totalmente mergulhados na área da seca e só agora ensaiam a diversificação produtiva. A diferença é que o Ceará vem sendo beneficiado por iniciativas consensuais e técnicas de gestão que dificilmente se viabilizariam na atmosfera de radicalismos ideológicos que pulverizam a ação das elites pernambucanas. "Não há dúvida de que estamos perdendo dinamismo", admite o empresário da construção civil Jorge Corte Real, presidente da Fiepe.
A sintonia governo-empresariado no Ceará é quase perfeita. As sugestões do setor produtivo chegam através de conselhos setoriais integrados por empreendedores e são avaliadas por outros cinco empresários com poder de decisão - no caso, o governador Jereissati e os quatro secretários de Estado, entre eles o Desenvolvimento Econômico. "Nosso discurso é afinado", confirma o presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec) e tesoureiro da CNI, Fernando Cirino Gurgel. Em outro contexto, bastaria esse detalhe para abalar a credibilidade de um governante, sob a acusação de privilegiar grupos na gestão do patrimônio público. Ocorre que a estratégia tem gerado riqueza e empregos e, como em qualquer parte do mundo, esses dois fatores acabam rendendo dividendos políticos. Candidato à reeleição, Jereissati lidera as pesquisas. Em Pernambuco, Arraes, também candidato a mais quatro anos de governo, corre o risco de enfrentar sua primeira derrota nas urnas.
Um dos segredos do sucesso cearense é a capacidade de não desperdiçar energias. O esforço de atração de investimentos está concentrado em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. De cada um desses estados foi atraído um nome de peso, capaz de implantar no Ceará indústrias âncoras que servissem de referenciais para outros investidores. Por exemplo: em São Paulo elegeu-se a Vicunha; no Rio Grande do Sul, a Grendene. Seguindo as pegadas desses grandes grupos vieram outras indústrias têxteis e calçadistas, que consolidaram pólos de mão-de-obra intensiva em Fortaleza e no interior do Estado.
"Sempre perguntamos ao investidor quem são os seus parceiros", diz Raimundo Viana. "Então, vamos à luta para também atraí-los". O efeito multiplicador acaba acontecendo. Recentemente a Antártica e a Kaiser decidiram produzir no Ceará. O governo local aproveitou para levar a Metalic, que produz latas para cerveja e refrigerantes, e já está negociando com um fabricante de grades. Com os investimentos na área têxtil, como a moderna unidade do Grupo Vicunha, foi fácil também atrair a japonesa YKK, maior fabricante de zíper do mundo. A Avon foi cercada - e aceitou instalar um centro de distribuição em Fortaleza - porque esse foi o jeito que os cearenses encontraram para arrastar cinco fabricantes de moda íntima cujos produtos são comercializados pela empresa. Como a maioria dos estados nordestinos, o Ceará tem um complicador à implantação de indústrias: a qualificação profissional. "Nossa mão-de-obra é muito despreparada", reconhece o engenheiro José Carlos Pontes, presidente do Grupo Marquise, 14º no ranking estadual, com faturamento de 60 milhões de reais ao ano. "Mas é também muito receptiva a treinamentos e assimila rápido", acrescenta. O hotel Caesar Park de Fortaleza, uma das empresas do Marquise, foi o primeiro do Brasil a conquistar o certificado ISO 9001, operando exclusivamente com mão-de-obra local. Outro exemplo é o da metalúrgica Durametal, do engenheiro Fernando Cirino. A empresa, cearense da gema, é fornecedora dos tambores de freio usados em veículos pesados da Mercedes e exporta para 20 países, sob a garantia do certificado ISO 900.
"O Ceará é administrado
como uma empresa", diz o empresário pernambucano Delino de
Souza, dono da fábrica de tintas Iquine. O secretário Recena
acha exagero, mas admite que há entre o governador Miguel Arraes
e o empresariado um grande fosso gerado por
"preconceitos", que prejudica o Estado. Apesar dos
reveses, Pernambuco continua a ser um ponto estratégico para
quem pretende investir no Nordeste e quem escolheu o segmento
certo não pretende deixar a área. A Lanesa, indústria de latas
do Grupo Latasa, é um caso. "Investimos 70 milhões de
reais na unidade atual e agora estamos transferindo para Recife
nossa fábrica de tampas em Minas", anuncia Othon José
Carvalho, gerente da Lanesa. Pernambuco continua a concentrar boa
parte da indústria química regional, abre-se à tecnologia de
ponta com o seu distrito eletro-eletrônico e consolida-se como o
maior pólo distribuidor do Nordeste. O problema é que os rivais
cearenses estão na sua cola - e com muita vontade de ultrapassá-lo.