
Ano
V // Nº 275
Texto
publicado na edição de 8 de setembro de 1999 da
revista Exame
|
O
garoto da Coca-Cola
Por JOMAR MORAIS, de Recife
Por
que Ricardo Franco virou um dos preferidos da
companhia global
Esqueça por alguns
instantes as empresas digitais que estão mudando
a economia e seus jovens empreendedores
informais, criativos e milionários. Imagine-se
no Brasil de 1993 - um país sem Internet,
perturbado pelo fantasma da inflação e onde
empresas bem sucedidas eram necessariamente
comandadas por executivos experientes.
Imaginou?
Então, responda sinceramente: Que futuro você
vê para uma empresa, franqueada de uma grande
marca mundial, que acaba de ser entregue a um
menino de 21 anos sem nenhuma experiência em
gerência corporativa?
Se
você pensou "o dilúvio vem aí", não
se acanhe. Foi algo assim que pensaram à época
a maioria dos funcionários e, sobretudo, os
concorrentes quando a Refrescos Guararapes,
fabricante da Coca-Cola em Recife, passou a ser
dirigida por Ricardo Barreto Franco. Aos 21 anos,
o irrequieto Ricardo tinha como maior credencial
para assumir o cargo o fato de ser filho do dono
da empresa, o atual governador de Sergipe, Albano
Franco.
A
Refrescos Guararapes era uma organização
lucrativa, porém, ameaçada. Sua única fábrica
faturava o equivalente a 40 milhões de reais,
mas para manter-se competitiva precisava
urgentemente crescer e incorporar novas
tecnologias. Mais: a empresa precisava provar à
Coca-Cola Company que, se ela queria mesmo
consolidar a produção no Nordeste numa única
franqueada - como chegou a anunciar -, a
escolhida deveria ser a Guararapes e não a
Refrescos Cearenses, do grupo Jereissati,
supostamente a sua preferida. O inconveniente
para quem apostou na implosão da Guararapes foi
que a previsão acabou como uma profecia do
estilista francês Paco Rabanne (ou, vá lá, de
Nostradamus) sobre o fim do mundo.
No mês passado, a empresa
inaugurou uma novafábrica, a terceira desde que
Ricardo, hoje com 27 anos, assumiu o comando dos
negócios. A unidade, construída a 50
quilômetros de Recife, é a mais moderna planta
da Coca-Cola na América Latina e uma das mais
avançadas do mundo em tecnologia de produção e
controle. Ali, nenhuma máquina é operada
manualmente. O controle de custos é feito em
tempo real, em todas as etapas da produção.
Quando estiver funcionando plenamente, a fábrica
produzirá 1,2 bilhão de litros por ano, o
suficiente para abastecer 70% do mercado de
refrigerantes da marca Coca-Cola no Nordeste.
"Nem eu acreditava que chegaria a este
ponto", diz Ricardo, protagonista de uma
história de sucesso que surpreende pelos seus
resultados, sim, mas também por seu roteiro nada
ortodoxo.
Para
começar, não é todo dia que um pai aposta tão
alto no talento de de filho tão jovem, dando-lhe
carta branca. Albano Franco recebera a fábrica
de refrigerantes na partilha dos bens do
patriarca da família, Augusto Franco, no início
da década. No entanto, senador e presidente da
CNI àquela época, preferiu dedicar mais tempo
à política deixando a empresa para Ricardo.
Não se arrependeu. Quando ele assumiu a
direção, a Guararapes respondia por um terço
do faturamento dos negócios montado por seu
avô. Seis anos depois, o faturamento de 240
milhões de reais representa cinco vezes mais que
o movimento das demais empresas do grupo.
Na
verdade, foi Ricardo que conquistou o espaço que
hoje ocupa, com o seu estilo obsessivo de
perseguir metas, manifestado já no início da
carreira. Ele tinha 18 anos e estudava engenharia
mecânica na PUC do Rio de Janeiro quando
descobriu que seu lugar era na fábrica. Não
perdeu tempo. Largou a escola e, como trainee na
Coca-Cola carioca, foi conhecer o seu futuro
campo de trabalho. Certa vez, um amigo encontrou
seu pai e lhe falou, em tom de brincadeira:
"Albano, se eu não soubesse que o Ricardo
está na faculdade, juraria tê-lo visto há
pouco entregando Coca-Cola na Tijuca".
Albano sorriu. Aquele jovem de traços suaves
metido num macacão escuro, que o amigo
acreditava ter visto, era mesmo Ricardo, que
naqueles dias estagiava como entregador de
refrigerantes. Na Guararapes, ele passaria por
vários setores, antes de tomar as rédeas.
"Carreguei até sacos de açúcar nas
costas", diz Ricardo. "Quando senti que
conhecia todas as etapas do negócio, pedi uma
chance ao dr. Albano".
Com Ricardo Franco, a
Guararapes transformou-se numa empresa ágil,
nervosa e flexível diante dos movimentos do
mercado. Fácil? Claro que não. Nos primeiros
dias tudo parecia conspirar contra aquele
executivo imberbe. Até os móveis do escritório
de cores sombrias. Durante sua primeira
entrevista cpara contratação de uma executiva,
a poltrona desmontou e ele esparramou-se pelo
chão, arrancando risos da entrevistada. Apesar
da trapalhada, acabou marcando seu primeiro gol.
A psicóloga paulista Emy Kagimoto, que até
então só havia trabalhado em multinacionais,
não se deixou levar pela aparência e aceitou o
desafio de assumir a Gerência RH da Guararapes.
"Ele me falou: 'preciso mudar a cabeça
dessa empresa'. E me convenceu", diz Emy.
Hoje
em dia na sede da Guararapes nada lembra os
velhos tempos. A começar pela equipe de
superintendentes e gerentes, com idade média de
32 anos. Eles não usam ternos, não têm sala,
despacham em mesas redondas, sem gavetas, e sabem
que devem estar sempre prontos para mudar quando
esse é o caminho para garantir qualidade e
redução de custos, duas obsessões do chefe na
busca por competitividade. A única divisória da
ala administrativa é o biombo de vidro
transparente que separa a mesa de Ricardo Franco
- também redonda e sem gavetas - das demais. Nem
mesmo ele, porém, tem secretária exclusiva.
"Sou
rápido no gatilho", diz Ricardo. "E
espero o mesmo de meus colaboradores". Há
dois anos, quando a Coca-Cola ameaçou consolidar
sua produção regional no grupo Jereissati, ele
precisou de apenas um almoço com o empresário
paraibano Carlos Lira para fechar a compra da
fábrica de Coca-Cola de João Pessoa, por 10
milhões de reais. Seis meses depois repetiria a
dose, ao adquirir a franqueada de Garanhuns. Em
ambos os casos, o pai, Albano Franco, só ficou
sabendo no dia seguinte. A fábrica
recém-inaugurada começou a sair do papel apenas
45 dias depois de a Coca-Cola anunciar, há um
ano, que a consolidação no Nordeste não mais
se daria por decreto, mas por seleção natural.
Com a nova planta, a Guararapes passou a fabricar
a um custo tão baixo que pode ser mais vantajoso
para outras franqueadas simplesmente revender
parte de sua produção.
Pelo menos em uma ocasião,
a agilidade de Ricardo Franco chegou a trombar
com a própria Coca-Cola Company. Aconteceu há
três anos, quando ele decidiu adotar o sistema
gerenciador R/3, da alemã SAP. A Guararapes foi
a terceira empresa brasileira a adquirir o
sistema alemão e acabou atravessando uma
negociação da própria Coca-Cola com a SAP para
implantação do R/3 em sua rede mundial.
Emissários da franqueadora vieram de Atlanta,
nos Estados Unidos, para persuadir Ricardo a
mudar seus planos. Em vão. Ele acabou
convencendo os emissários da empresa de que não
poderia esperar. "Era um ferramenta
essencial para cortar custos e ganhar
produtividade", diz Ricardo.
Como ficaram as relações da Guararapes com a
Coca-Cola depois do episódio? Aparentemente,
numa boa. "Ricardo é um dos jovens
empreendedores mais talentosos da geração que
cresceu dentro do sistema Coca-Cola", afirma
Stuart Cross, presidente da subsidiária
brasileira da Coca-Cola. "Ele tem uma
formação sólida na prática de negócios e a
nova fábrica de Recife é um dos resultados da
sua visão". Ele é também admirado por seu
perfil conciliador nas reuniões nem sempre
tranqüilas entre franqueadora e franqueados ( A
resistência dos franqueados ao rítmo do
processo de concentração das engarrafadoras,
por exemplo, teria sido a causa principal da
substituição do antecessor de Cross, Luiz
Lobão.)
Em
sua empresa, Ricardo é mais severo. "Ele é
um empresário arrojado, mas tem grande
dificuldade para trabalhar em equipe,", diz
um consultor de empresa que teve acesso aos
bastidores da Refrescos Guararapes. O próprio
Ricardo admite que é centralizador e, às vezes,
cobra demais. Mas diz que a equipe que montou em
93 continua inteira na empresa e está crescendo
com ele. Na Guararapes, o foco em qualidade e
treinamento é ponto de honra para os 1 500
funcionários da empresa. Mas ninguém espere que
Ricardo patrocine cursos com consultores
motivacionais ou gurus do marketing. "Não
acredito em consultores. Acredito em Deus, na
minha intuição e na força do trabalho",
diz Ricardo Franco. Livros? Ele também não os
lê. Prefere guiar-se por revistas como a Harvard
Bussiness Review e EXAME. Busca também
inspiração em empreendedores como João Carlos
Paes Mendonça, conterrâneo de Sergipe que
fundou em Recife o Bompreço, terceira rede de
supermercados do país.
Ricardo Franco é um viciado
em trabalho e isso faz toda a diferença em seu
estilo de vida. Trabalha das 7h às 20h e só aos
domingos se permite pensar em outra coisa. É
quando costuma ir à missa - em sua sala existem
cinco imagens de santos - e, depois, caminhar na
Praia do Saco, em Aracaju. "Já larguei duas
namoradas por que elas me obrigaram a escolher
entre o namoro e a empresa", afirma. Na
família Franco, o diretor executivo é uma
espécie de ovelha desgarrada. Ricardo critica a
marcha lenta dos tios, empresários dos setores
têxtil e canavieiro em Sergipe, sempre à espera
de subsídios para resolver problemas de
competitividade, e quer a família distante da
Guararapes. "Meu compromisso é com a
organização", afirma Ricardo. "Sou um
profissional".
Ricardo Franco
Idade:
27 anos
Formação: Iniciou e desistiu
do curso de engenharia mecânica
Cargo: diretor executivo da
Refrescos Guararapes
Estado Civil: solteiro
Leitura: só revistas e jornais
especializados em economia
Cinema: comédias e desenho
animado
Música: MPB
Esporte: caminhadas na praia em
Aracaju
Vícios: nenhum
Virtudes: disciplina e
organização
Guru: Paes Mendonça, fundador
da rede Bompreço
Religião: Católica, praticante
Próxima meta: adotar
participação dos funcionários no lucro da
Guararapes
Sonho: transformar sua empresa
na melhor franqueada da Coca-Cola no país
Preocupação: segurança
pessoal (anda em carro blindado com segurança)
Sobre política:
"Detesto"
Sobre os concorrentes:
"Respeito todos e não temo ninguém"
Autocrítica: "Sou muito
centralizador"
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