
Ano
V // Nº 281
Texto
publicado na edição de 15 de dezembro de 1999
da revista Exame
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Antídoto
contra injustiça
Ouvir os
empregados melhora o ambiente corporativo
Por
JOMAR MORAIS, de São
Paulo
O maior patrimônio de uma
organização são os seus funcionários, certo?
As empresas modernas sabem disso e, para
preservar seu capital humano, investem pesado em
programas de integração e medidas para tornar o
ambiente de trabalho mais participativo e
agradável. Até aí, tudo bem. Isso já é quase
um consenso no mundo dos negócios. Mas pense
numa empresa onde os funcionários, além de
terem trânsito livre na sala do chefão para
apresentar sugestões sobre qualquer coisa, podem
opinar sobre contratações de colegas e até
vetar demissões irrevogáveis, sem que para isso
precisem fazer greve. Ficção? Não, é
realidade pura, ainda que uma raridade no mundo
corporativo. Há algum tempo é assim que as
coisas funcionam na subsidiário brasileira da
americana Johnson Controls, fabricante de bancos
e painéis para automóveis. Com um faturamento
de 12,4 bilhões de dólares em 1998, a Johnson
Controls emprega 90 000 funcionários em 500
fábricas espalhados pelo mundo.
Não
se trata de prática informal. Tudo está escrito
em regulamentos, respeitados por todas as
instâncias da empresa. No caso de admissão, o
voto dos funcionários é o terceiro item de um
roteiro conhecido como "Seis passos da
contratação", criado pelo vice-presidente
da Johnson Controls para a América do Sul,
Gerald Beaubien. A norma estabelece que, após
preencher os formulários de praxe e passar pelos
testes psicológicos, o candidato a emprego deve
ser entrevistado por um grupo de futuros pares,
que avaliarão seu potencial profissional e,
sobretudo, suas possibilidades de harmonização
à equipe. Se a avaliação do grupo for
negativa, o processo de seleção será
interrompido.
Quando o assunto é
demissão, o trâmite é mais cauteloso. Como em
qualquer empresa, os chefes na Johnson Controls
têm a prerrogativa de demitir quem considerem
ineficiente ou tenha sido flagrado em deslize
grave. O funcionário demitido que se sentir
vítima de injustiça, no entanto, tem duas
chances de reverter a decisão. Primeiro, pode
pedir a revisão do ato ao gerente geral da
fábrica. Se não concordar com a resposta do
superior, a companhia lhe concede o direito de
solicitar a instalação do chamado
"processo alternativo de mediação".
Tratase de uma espécie de tribunal interno,
formado por cinco funcionários escolhidos por
sorteio, dos quais três pares do
"réu", sob a coordenação do gerente
de recursos humanos da unidade. Este, no entanto,
não tem direito a voto. Durante o julgamento, o
demitido pode defender-se, inclusive com
apresentação de testemunhas. Se conseguir
convencer os jurados, terá seu emprego de volta.
O mecanismo ainda não foi acionado nenhuma vez
nas fábricas da Johnson Controls nos estados de
São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Mas se trata
de recurso efetivo e um modo inédito de uma
empresa atribuir poder aos seus funcionários.
Conforme as regras, nem mesmo o presidente
mundial da companhia pode derrubar o que o
tribunal de mediação decidir.
"A
Johnson Controls quer ser uma empresa
transparente e justa e isso exige diálogo em
todos os níveis e situações", diz o
gerente de recursos humanos da unidade de São
José dos Campos, Ademir Vital. "A
integração da equipe vai além da rotina da
fábrica, alcança a família do
funcionário". O último dos seis passos
para contratação, por exemplo, prevê que
qualquer contrato de trabalho - mesmo o de um
operário de chão de fábrica - deve ser
assinado durante um almoço ou café da manhã de
boas vindas com o gerente geral da fábrica.
Nessa ocasião, o funcionário comparece
acompanhado de sua família. O ritual, chamado na
linha de produção de "café com o
homem", completa-se com a apresentação do
local de trabalho aos familiares, mas só no dia
seguinte é que o novo contratado peg amesmo no
batente.
Rotinas
inovadoras como essa não conseguem evitar cortes
de pessoal quando o mercado se mostra adverso ou
a empresa fica muito aquém de suas metas. A
fábrica de São José, onde hoje trabalham 360
funcionários, já teve 450 no ano passado. A
guilhotina foi acionada depois que as vendas de
carros novos despencaram e as montadoras
reduziram suas encomendas. Nesse caso, porém, a
transparência de informações e a
participação das bases ajudou à Johnson
Controls a administrar uma situação difícil
sem maiores traumas. A parceria estabelecida na
normalidade costuma persistir nos momentos de
crise.
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