A
trajetória da teoria da evolução nos Estados Unidos nunca
foi tranqüila. Nas primeiras décadas do século XX,
metodistas, batistas e presbiterianos realizaram campanhas
anti-evolucionistas em mais de 20 Estados e conseguiram
banir o ensino da teoria de Charles Darwin, nos anos 20, em
quatro Estados – Oklahoma, Tennessee, Mississippi e
Arkansas. A inspiração para essa cruzada era conter o avanço
de uma teoria que favorecia o ateísmo e o materialismo. Mas,
nessa época, havia ainda outras motivações. William
Bryan, um dos líderes da campanha – e também político
pacifista, alinhado com causas avançadas como o voto
feminino – temia que a idéia de seleção natural
incentivasse uma "cultura da crueldade" na
sociedade, com a discriminação dos mais fracos. O próprio
Darwin receava o uso político da sua teoria e hesitou por
mais de 20 anos antes de torná-la pública.
Intensas batalhas judiciais
foram travadas e em diversas ocasiões os criacionistas
conseguiram barrar, temporariamente, o ensino da teoria
evolucionista nas escolas de Estados do sul, mais
conservadores. A partir dos anos 60, uma nova geração de
criacionistas adotou a estratégia de pleitear tempo igual
nas escolas para Darwin e para a Bíblia, sendo montado um
corpo doutrinário para o que se chamou de ciência-criação,
em oposição à ciência da evolução. Foram igualmente
criadas fundações e institutos que incentivam e patrocinam
pesquisas destinadas a comprovar a narrativa do Gênesis –
da criação do homem ao dilúvio de Noé – e uma maciça
ação de marketing passou a incluir até excursões geológicas
nas quais jovens e crianças garimpam no solo americano indícios
do dilúvio global.
Na década passada, os
criacionistas voltaram a obter vitórias expressivas – e
temporárias – em alguns Estados americanos. O caso mais
destacado foi o do Kansas, onde o Conselho Estadual de Educação
aboliu do currículo escolar a teoria evolucionista, em
1999. A decisão foi depois derrubada pela Suprema Corte dos
Estados Unidos. Não se trata de gestos solitários, num país
em que o fundamentalismo religioso é bastante influente.
Mais de 50% dos americanos se dizem favoráveis ao ensino
das teorias criacionistas nas escolas ao lado da teoria
evolucionista. Mas isso pode ser pouco para os criacionistas
radicais. Para eles, a questão da origem do mundo e da vida
resume-se a seis premissas indiscutíveis:
• Universo, energia e vida
foram criados do nada – por Deus.
• Organismos complexos não
podem surgir de formas simples de vida, por meio de mutações
aleatórias.
• Os seres vivos (plantas e
animais) podem variar apenas dentro dos limites fixados para
cada espécie.
• Homens e macacos têm
ancestrais distintos.
• A geologia terrestre pode
ser explicada pelo catastrofismo, a começar pelo dilúvio
global registrado na Bíblia.
• A Terra é jovem – tem
menos de 10 000 anos e não os 4,5 bilhões de anos
estimados pela ciência.