O carioca Bruno Parodi
é um rapaz de sucesso. Aos 23 anos, ele é
um dos donos da Tessera, empresa de Internet
que, segundo diz, vai muito bem, obrigado,
apesar das tempestades que assolam a economia
pontocom. Fundada em 1995, quando Bruno tinha
apenas 18 anos, a Tessera desenvolve projetos
v
irtuais para terceiros
e mantém na rede produtos próprios como o
Indicão, um site de entretenimento
personalizado, que em apenas dois meses de
vida capturou 10 000 usuários registrados e
já computou 2 milhões de páginas vistas.
Apesar disso, a habilidade empreendedora não
é o detalhe que mais se destaca no perfil
desse jovem empresário. Incrível mesmo é a
sua capacidade de se manter plugado à
Internet por horas a fio, numa demonstração
de resistência muito além do limite das
pessoas comuns.
"São 12
horas de conexão por dia", diz Bruno.
"Tenho mais de 10 contas de email,
recebo, em média, 400 mensagens diariamente
e, tirando os spams (aquelas irritantes
propagandas não solicitadas que costumam
invadir nossos micros), respondo a
todos". É mole? Pois tem mais. Com toda
essa montanha de correspondência desabando
em sua tela, o rapaz ainda encontra tempo
para navegar por dezenas de sites de
informação, bater papo on-line com 700
pessoas cadastradas em seu canal de ICQ - de
figuras anônimas a celebridades como o
craque Ronaldinho - e, de quebra, costuma
publicar na rede artigos sobre marketing e
comunicação, sua especialidade
profissional. "Conheço muita gente
importante do mercado sem nunca ter visto
pessoalmente. Até meu sócio na empresa, eu
encontrei na Internet", revela.
Bruno é um
gênio? Um fenômeno da sociedade
tecnológica? Ele próprio acha que não.
"Considero-me um viciado em Internet, um
webaholic", define-se. Como os
profissionais obsessivos por trabalho, os
workaholics, o jovem carioca traça sua
auto-imagem com bom humor e uma ponta de
vaidade, mas a verdade é que comportamentos
como o de Bruno começam a ser vistos como
sinal de uma nova doença: a compulsão pela
vida digital. As infinitas facilidades
proporcionadas pela Internet, como fonte de
informações, serviços e meio de
comunicação entre as pessoas, têm levado
muita gente a perder o controle do tempo
quando estão à rede. Quando isso acontece,
o resultado é sempre uma sucessão de
prejuízos que vão do desequilíbrio nas
relações afetivas até a perda do emprego.
Chega a ser
paradoxal que um sistema de comunicação que
está revolucionando os negócios, ampliando
o provimento de informações e colocando em
contato pessoas dos quatro cantos do planeta
possa ser associado a uma patologia. No
entanto, estudos realizados nos últimos
quatro anos, especialmente nos Estados Unidos
- berço da Internet e país onde existem
hoje 146 milhões de internautas -,
evidenciam que atuar na teia mundial de
computadores tem lá os seus perigos.
No semestre
passado, por exemplo, uma pesquisa da
Universidade Stanford entre 35 000 usuários
de Internet em cidades americanas atestou que
o uso abusivo da rede está criando uma nova
categoria de pessoas solitárias, que se
refugiam nos computadores e já não se
interessam pelas obrigações e prazeres do
mundo real. O dado não é exatamente de uma
novidade. Afinal, dois anos antes, um outro
estudo patrocinado pela organização HomeNet
em Pittsburgh, na Pensilvânia, havia
identificado uma significativa tendência à
depressão entre usuários intensivos da
Internet. O curioso é que, dessa vez, a
divulgação dos resultados chocou de tal
modo os americanos que um dos coordenadores
da pesquisa, Norman Nie, não conteve um
desabafo. "Eu sabia que o assunto é
sério", disse. "Mas não esperava
que fosse tão explosivo".
A explicação
para o alvoroço está, talvez, em um número
ainda não referendado pelo rigor
estatístico, mas já suficiente para
preocupar até o governo dos Estados Unidos.
Estima-se que pelo menos 200 000 americanos
perderam o controle sobre o uso da Internet e
hoje sofrem de um mal catalogado pela
Associação Americana de Psicologia como PIU
(Pathological Internet Use) ou Uso Doentio da
Internet, cujo sintoma básico é o uso
preferencial e, muitas vezes, exclusivo da
Internet sobre todas as outras atividades do
cotidiano. Suas vítimas se tornam incapazes
de controlar o número de horas que
permanecem ligadas à rede, numa onda
compulsiva que acaba isolando-as de
familiares e amigos e comprometendo seu
desempenho profissional.
É uma
obsessão como o vício em jogo, dizem os
especialistas, mas cujos efeitos se
assemelham aos da dependência de drogas
químicas. Um viciado em Internet costuma
ficar triste ou ansioso quando não está
conectado. Ele também desenvolve o fenômeno
da tolerância - isto é, passa a ter
necessidade de permanecer conectado por
períodos cada vez mais longos para alcançar
o mesmo nível de satisfação. A síndrome
de abstinência, provocada pela cessação do
uso da rede, pode incluir até distúrbios
psicomotores, entre os quais o movimento
incontrolável dos dedos, como se o
internauta continuasse teclando mensagens sem
fim num computador imaginário.
É provável
que, enquanto lê esta reportagem, você já
se tenha perguntado: não seria esse um risco
a que estão expostos apenas os nerds,
aqueles fanáticos por computador? Afinal,
são eles e não os usuários comuns, como
você, que dão plantão permanente à frente
de um monitor. Também pensávamos assim até
conversarmos com Kimberly Young (leia quadro
na página ... ), doutora em Psicologia e
autora do mais completo estudo já realizado
sobre dependência de Internet nos Estados
Unidos. "Qualquer pessoa que possui um
computador e um modem pode tornar-se um
cyberdependente", diz Kimberly.
Inclusive você. A propósito, a pesquisa
feita por essa americana constatou maior
incidência de viciação entre pessoas que
navegavam na web há pouco mais de seis
meses. No Brasil, onde existem 5 milhões de
internautas e estima-se que mais 2,5 milhões
chegarão à rede nos próximos três anos,
não há ainda estatísticas sobre o
problema. Mas os casos de dependência
digital começam a sair do anonimato.
Se você ficou
impressionado com a rotina louca de Bruno
Parodi, é bom ficar sabendo: o rapaz está
longe de ser um caso grave de
cyberdependência. Parodi passa metade do dia
surfando na web, mas boa parte de suas
atividades on-line diz respeito aos seus
negócios que, aparentemente, até agora não
foram prejudicados. E é justamente aí que
está a linha divisória entre a normalidade
e a dependência na Internet, segundo os
pesquisadores americanos. Apesar de os
estudos indicarem que a maioria dos
webaholics fica plugada à rede, em média,
38 horas por semana, o que mais importa, na
definição do quadro clínico, é o impacto
do uso da Internet na vida de cada usuário e
não o tempo de conexão.
Veja o caso de
Rafael Fijalkowski, um gaúcho de 23 anos,
estudante de Radiologia em Porto Alegre. No
início do ano passado, ele entrou pela
primeira vez numa sala de bate-papo na
Internet e sua vida nunca mais foi a mesma.
Piorou muito, ressalte-se. Fascinado pelas
conversas on-line e pelo namoro virtual, o
rapaz deixou de lado festas, amigos e até a
família. "Perdi um semestre na
faculdade porque já não conseguia
estudar", diz Rafael. Exceto por um
único final de semana, Rafael costuma ficar
bem menos de 12 horas por dia plugado, mas os
efeitos da obsessão digital em sua vida são
mais nocivos que na do carioca Bruno.
Por que isso
acontece? Depois de estudar o comportamento
de jovens internautas como Rafael, um outro
pesquisador, o doutor em Psicologia John
Suler, da Universidade Rider, concluiu que a
Internet funciona como uma extensão do mundo
psíquico do indivíduo, um lugar onde a
comunicação escrita (as limitações
técnicas ainda não permitem a
generalização das videoconferências nos
chats) estimula os processos psicológicos de
projeção e transferência. No anonimato das
conversas on-line qualquer pessoa é capaz
de, não apenas expressar seus desejos e
fantasias com uma liberdade que jamais teria
no mundo real, como também de projetar com
mais intensidade no outro suas aspirações,
ansiedades e receios. O garoto tímido se
transforma no galã bem apessoado e falante.
A mulher tribufu ganha contornos de gata da
Play Boy. O teclado aceita tudo e o medo de
rejeição praticamente desaparece, em razão
da possibilidade de sair de cena a qualquer
momento, sem deixar rastro sobre a própria
identidade. A Internet, assim, proporciona
uma gratificação imediata, uma experiência
prazerosa que, no entanto, pode reforçar
determinados comportamentos e necessidades
não supridas pelo mundo real.
A dependência
digital é também um problema para as
empresas. Quase 70% do tráfego em sites
eróticos ocorre durante o horário comercial
e é protagonizado por profissionais que se
utilizam de computadores das companhias para
burlar o trabalho e dar vazão às fantasias.
Incomodadas com a queda da produtividade,
elas começam a reagir. No ano passado, a
Xerox Corporation, nos Estados Unidos,
demitiu em um único dia 40 funcionários,
por acessar páginas pornográficas em
horário de serviço. Em julho, foi a vez da
Dow Chemical mandar para o olho da rua 50
funcionários e suspender outros 200 por uso
do email da companhia para correspondências
obscenas. A preocupação se estende,
inclusive, aos teletrabalhadores, aqueles
profissionais que, mesmo vinculados a uma
empresa, trabalham em casa, através da
Internet.
Em tese, quem
acessa a Internet no trabalho tem menos
chance de se tornar dependente, segundo o
psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira,
coordenador do Proad, o programa de
assistência a dependentes de drogas da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
É que, nesse caso, o uso dá-se por
necessidade, não por fuga. A exceção são
os teletrabalhadores, que muitas vezes acabam
desenvolvendo uma atitude obsessiva, perdendo
a noção do tempo diante do computador
doméstico. Para amenizar o problema empresas
como a AT&T, a gigante americana das
telecomunicações, que mantém milhares de
funcionários produzindo em casa, impõem a
seus telecomuters a obrigação de respeitar
rigorosamente o horário de trabalho da
companhia.
Mesmo
referendado avalizados por universidades de
prestígio, os estudos sobre dependência
digital ainda constituem um tema polêmico,
contra o qual se insurgem alguns acadêmicos,
mesmo nos Estados Unidos. Eles questionam,
por exemplo, os critérios das pesquisas e
estranham que cientistas se assustem com a
absorção de rotinas do cotidiano pela
Internet, quando o desenvolvimento da
tecnologia de tele-imersão em breve deve
tornar corriqueiras a prática de esportes, a
troca de carícias e a percepção de odores
em ambientes de realidade virtual. Para
cientistas como Jaron Lanier, criador da
expressão realidade virtual e um dos pais da
programa Internet-2, a rede de altíssima
velocidade, o difícil é imaginar o que
estará fora do mundo virtual daqui a 20
anos. No Brasil, a contracorrente, é
liderada pela doutora em Psicologia Ana Maria
Nicolaci da Costa, da PUC do Rio de Janeiro.
Seu raciocínio: ninguém considera viciada
uma pessoa que passa quatro horas por dia
diante da televisão, mas se está querendo
aplicar o rótulo a quem acessa a Internet
apenas 10 horas por semana. Para a psiquiatra
paulista Denise Razzouk, não há como uma
pessoa equilibrada possa viciar-se em
Internet ou em qualquer coisa.
Chame-se a
isso vício, uso patológico ou mania, a
verdade é que muita gente não tem
conseguido conviver de forma saudável com
uma novidade que está mudando radicalmente o
mundo e o estilo de vida das pessoas. E,
neste caso, a solução é impor limites que
assegurem o retorno ao equilíbrio, seja por
meio de uma boa dose de autodisciplina ou com
ajuda de terapia psicológica. Em muitos
casos, o tratamento do webaholic inclui a
administração de calmantes e
antidepressivos - enfim, a mesma terapia
aplicada a dependentes de álcool e outras
drogas químicas.
Em qualquer
das alternativas, porém, o xis da questão
é sempre o reconhecimento, pelo dependente,
de que algo anda errado em sua relação com
os bits. "Não é fácil", diz a
psicóloga Rosa Maria Farah, do Núcleo de
Pesquisa de Psicologia em Informática da
PUC, em São Paulo. "A resistência do
dependente é muito grande e são sempre os
familiares e amigos que tomam a iniciativa de
buscar ajuda".
Lembra de
Rafael, o gaúcho? Não são poucas as vezes
em que ele pensou em buscar um tratamento,
mas na hora H... "A gente sempre arruma
uma desculpa para não fazer", diz.
Talvez, nenhuma trilha para a cura leve tão
rápido a resultados quanto a encontrada pelo
webdesigner paulistano Eduardo Salgado, cuja
vida andava enroscada na rede. Ele já havia
perdido os amigos, que não agüentavam mais
aquele interminável "minutinho"
para terminar algo na Internet, quando se viu
forçado a vender o micro. "No começo
foi duro, fiquei desesperado", conta.
"Mas depois descobri o que estava
perdendo. Eu era muito viciado."
Bruno e
Rafael, vocês não gostariam de fazer o
mesmo?
(*)
Com a colaboração de Mariana Mello