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Julho/2006
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Impermanência
e plenitude
Livres,
podemos perceber que nem tudo é, esquematicamente,
felicidade ou tristeza, mas sim
manifestações apropriadas do
cosmo
por
Lindeberg Ventura (*) |
Não estamos acostumados a perceber a sucessão dos
eventos da natureza, o movimento da vida, a dinamicidade do
cosmo, a sucessão dos dias, a nossa
própria transformação. E isto nos coloca em uma espécie
de torpor, ou mesmo, nos anestesia e coloca uma viseira que nos
tira a capacidade de ver as coisas como elas são.
Não
quero aqui mostrar o lado negativo ou mesmo positivo. Tentarei,
sim, ser o mais realista possível. Se
pararmos um pouquinho em nossa vida tão corrida e tentarmos
observar cada coisa, seja um ser vivo ou inanimado, deparamos
com uma gradativa e ininterrupta mudança. Algo a faz mudar, às
vezes rápido, às vezes lentamente, mas sempre mudando. Quando o
processo é acelerado percebemos com facilidade. Quando é lento
temos dificuldade em notá-lo – e essa dificuldade nos mantém alienados
diante da vida. Achamos, erroneamente, que as coisas são permanentes. Com isso,
perdemos a capacidade de
perceber a vida como algo único a cada instante. Por termos a
“certeza” de que o sol vai nascer e se pôr todos os dias
naquele mesmo local, num aparente evento repetitivo,
extrapolamos ilações incorretas para o resto, esquecendo o processo
dinâmico da vida. Classificamos os acontecimentos como monótonos
quando eles se "repetem” ou maravilhosos
quando as coisas acontecem do nosso modo. Nossa visão alienada
nos distancia do caminho da plenitude do momento presente e nos
coloca em um mar de eventos que já passou ou que irá passar (
passado e futuro).
Essa alienação consome toda nossa energia e
nos mantém iludidos em um mundo de sonhos fora dos padrões
verdadeiros de existência. Podemos dizer que estamos em
uma Matrix, em se fazendo alusão ao filme com este nome. Essa
visão distorcida nos corrompe e coloca barreiras na nossa
percepção ao ponto de não percebermos que estamos
passando por este planeta e, mais cedo ou mais tarde,
teremos que deixá-lo. Deixamos de notar coisas como a
inevitável partida de nossos pais, a qualquer momento, ea
inevitável sucessão dos dias. Não percebemos que tudo – absolutamente tudo – é
impermanete, que não há um porto seguro em que
consigamos nos apoiar para sempre, pois tudo o que é matéria está sujeito
à lei universal do dinamismo e da transformação. Fazemo-nos
cegos ante as evidências. Deixamos de nos encantar com o raiar
do sol e com a realidade de que somos seres únicos. Jamais
existirá uma pessoa igual à outra no planeta. Jamais
passaremos uma segunda vez por este corpo. Jamais existirá uma
experiência igual à outra.
Tudo é único e todas as coisas se
desfazem, tudo tem seu tempo para existir e deixar de existir.
Quando internalizarmos isso, tornamo-nos livres. Livres do apego, do
querer segurar o fluxo do universo, do querer tudo ao nosso
modo, das correntes que nos prendem e que impedem de ver as
transformações das coisas. Livres para perceber que nem tudo é,
esquematicamente, felicidade ou tristeza, mas sim
manifestações apropriadas do
cosmo em nossas entranhas. Quando deixarmos de querer segurança para nós e para as coisas que nos rodeiam saberemos que
estamos em consonância com o momento presente. O presente é
tudo que temos, e é nele que devemos nos concentrar, sem
agarrarmo-nos a ele, pois este também é impernamente.
”...Entender
os mistérios quase sempre requer um encontro com o medo e o
reconhecimento que a realidade última do universo não é assim
tão bonita, bem-arrumada e sob controle humano” (Carol S.
Peanrson – O despertar do herói interior)
“Sem
desistir da esperança – de que há um lugar melhor para
estar, de que há alguém melhor para ser – nunca relaxaremos
onde estamos ou naquilo que somos” (Pema Chödrön – monja
budista – livro: Quando Tudo Se Desfaz)
“No
mundo da esperança e do medo, sempre teremos que mudar de
canal, ajustar a temperatura ou procurar outra música, porque
algo está se tornando desconfortável, algo está se tornando
inquieto, algo está começando a doer, e nós
continuamos a procurar alternativas.(...) Esperança e
medo surgem porque sentimos que nos falta algo, de um sentimento
de carência. Não conseguimos simplesmente relaxar em nós
mesmos. Agarramos a esperança e ela nos rouba o momento
presente”
“Mas
se experimentarmos completamente a desesperança, desistindo de
qualquer expectativa de alternativa para o momento presente,
poderemos ter uma relação prazerosa com nossa vida, uma relação
honesta e direta, que não mais ignora a realidade da impermanência...”(Pema
Chödrön).
Quer
falar com o autor? >>> lindebergv@yahoo.com.br
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