Ano
V // Nº 293
Texto
publicado na edição de 31 de maio de 2000 da
revista Exame.
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Alô,
alô, amigo ouvinte...
O Consórcio Lyscar dá uma
lição de marketing de longo alcance
Por JOMAR MORAIS, de Aracaju
O que é uma boa idéia no
mundo dos negócios? No mínimo, uma idéia que
gera bons resultados, certo? Pode ser simples e
óbvia - uma característica das grandes
soluções depois que alguém as concebe- ou até
contrária às regras estabelecidas. Importa que
funcione. Nesse sentido, o Lyscar, um consórcio
de carros e motos sediado em Aracaju, é um caso
exemplar. Há 10 meses, a empresa afrontou a
lógica dos negócios em seu segmento ao investir
tempo e dinheiro no cortejo a consumidores que
vivem à margem do mercado formal, em distantes
povoados nordestinos onde sequer se consegue
captar o sinal das emissoras de televisão.
Detalhe: o Lyscar despachou vendedores para essas
regiões, mas foi o rádio, usado de forma ágil
e criativa numa época em que só se fala em TV e
Internet, que acabou se transformando na
principal ferramenta de trabalho na nova
fronteira de vendas.
Basicamente,
a novidade criada pelo Lyscar foi a seguinte:
passou a transmitir por rádio as assembléias de
consorciados, quando são feitos os sorteios de
veículos, e criou um programa de prestação de
serviço em que diretores do consórcio
esclarecem dúvidas ao vivo. Com isso, a empresa
atraiu uma clientela até então desconhecida e,
de certo modo, rejeitada pelo comércio de bens
duráveis. Trata-se de uma classe média do
interior de Sergipe e de Alagoas - pequenos
comerciantes, aposentados, viúvas e
funcionários da Chesf, a Companhia Hidrelétrica
do São Francisco - cuja renda formal ou a idade
avança. Resultado: as vendas do consórcio
aumentaram 50% em menos de um ano.
A fórmula do marketing radiofônico é simples.
"Um consórcio é um condomínio de
sonhos", diz Carlos Alberto Teixeira Lyra,
diretor executivo do Lyscar. "Por meio do
rádio procuramos reforçar esse elemento mágico
com o esclarecimento de dúvidas e a prestação
de serviços que tornem o nosso negócio o mais
transparente possível aos olhos do
cliente". A experiência começou na pequena
Canindé do São Francisco, uma cidade de 50 000
habitantes, distante 132 quilômetros de Aracaju.
No início, o programa se resumiaà transmissão
das assembléias de consorciados pela emissora
local, a Rádio Xingó. A resposta positiva dos
ouvintes levou o Lyscar a comprar horários na
Rádio Cultura de Aracaju, cujo sinal abrange
Sergipe e estados vizinhos, e criar a revista
radiofônica Lyscar Auto, composta de 12 quadros.
O programa divulga os lançamentos da indústria
automobilística, dicas sobre manutenção de
veículos e legislação de trânsito e,
sobretudo, esclarecimentos sobre o funcionamento
e as vantagens do sistema de consórcios,
respondendo a questões encaminhadas por telefone
e fax. "A cada edição são mais de 50
perguntas feitas pelos ouvintes", diz o
radialista Cícero Mendes, apresentador do
programa.
Muitos
dos que ligam para perguntar acabam virando
consorciados. Em Canindé do São Francisco, a
professora Inês Alves Brito se decidiu aderir a
um dos grupos do consórcio depois de ser
esclarecida pelo rádio sobre as regras do jogo.
Em Piranhas, o operador da Chesf Sandro Rogério
Bezerra diz que suspendeu as cansativas viagens a
Aracaju, para acompanhar as assembléias, porque
a transmissão radiofônica não deixa margem a
dúvidas. Dos 3 000 participantes do Lyscar, 30%
entraram após a estratégia de marketing no
rádio. Muitos aguardam por motos, cujas
mensalidades entre 60 e 100 reais são bem mais
compatíveis como padrão de renda região que os
190 a 350 reais pagos pelos que querem retirar
automóveis.
Com
os juros do crédito ao consumidor ainda
elevados, os consórcios continuam a ser
praticamente a única alternativa de aquisição
de bens para boa parte dos brasileiros. Em
fevereiro as empresas do ramo em todo o país
contabilizavam 2,6 milhões de cotistas, dos
quais pouco mais de 1 milhão estava à espera de
um carro novo. É um apelo que o rádio, usado
segundo a fórmula do Lyscar, pode tornar
irresistível em regiões que começam a ser
incorporadas à economia de consumo.
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