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Ano XI
 Nº 344

 

Especial
Planeta Jota

 

Julho 2005

 

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No II Congresso de Meditação

"Não há Budismo
sem crenças"

Alan Wallace adverte que não é possível dissociar as técnicas orientais de seu aspecto transcendental para atender às exigências do materialismo e do hedonismo 

Por Jomar Morais 


Wallace (c), no congresso de
Curitiba: integração entre ciência, ética e meditação

É possível viver uma tradição espiritual, como o Budismo ou o Cristianismo, sem crenças – isto é, sem os seus fundamentos mitológicos e sua cosmologia transcendental? Para o americano Alan Wallace, físico, filósofo da ciência e doutor em estudos religiosos pela Universidade de Stanford, a resposta é não. “Não há Budismo sem crenças”, disse Wallace em sua conferência sobre “Ética, Ciência e Meditação” durante o II Congresso Brasileiro de Meditação, realizado em Curitiba. A cosmologia (doutrina que trata do princípio e da natureza das coisas, do universo) elaborada por uma tradição é a base de todas as suas concepções. Wallace é também monge ordenado pelo Dalai Lama e atualmente um dos grandes escritores e tradutores do Budismo tibetano no Ocidente.

Não há Budismo sem crenças, assim como não há Cristianismo sem fé. O que ocorre atualmente é que alguns cientistas e estudiosos tentam reduzir o Budismo e outras tradições místicas – inclusive o Cristianismo -  aos valores que seriam “bons para todos”, deixando de lado a visão transcendental do ser e do universo dessas escolas filosóficas. “Os valores descartados são aqueles incompatíveis com o materialismo”, disse Wallace. “Mas não podemos viver sem crenças”, afirma. A ciência não consegue dar um sentido para a vida.

A palavra de Alan Wallace reforça a advertência de muitos líderes das tradições espirituais diante da manipulação dessas doutrinas pelo pensamento materialista e utilitarista. É o caso do respeitado professor José Hermógenes, pioneiro do Yoga no Brasil, e um dos palestrantes do II Congresso de Meditação. Hermógenes lamenta a transformação do Yoga numa simples ginástica para quem pode pagar. Extraem-se as técnicas de relaxamento, introspecção e concentração ensinadas pelas tradições e tentam transformá-las em produtos “científicos”, muitas vezes vendidos a peso de ouro e embalados na ilusão de que podem surtir seus mais amplos efeitos dissociados de uma intenção ética e transcendental. O conhecimento e a prática disseminados em nome do amor e da compaixão por todos os seres, ao longo de séculos, são rotulados com nomes pomposos e negociados em workshops, sessões especiais com facilitadores etc., às vezes ao custo de milhares de dólares.

INTEGRAÇÃO CIÊNCIA E ÉTICA

Wallace lembrou que a própria ciência ocidental é uma invenção de filósofos e religiosos cristãos que, em suas pesquisas, buscavam entender Deus pelo conhecimento da estrutura e do funcionamento do universo. Isaac Newton, o pai da física clássica, por exemplo, era religioso. E mesmo Albert Einstein, no século XX, expôs a sua espiritualidade. A idéia de que ciência e ética (e espiritualidade) são incompatíveis surgiu depois e vem sendo alimentada pelo materialismo e hedonismo dominantes no mundo ocidental. “Quando olhamos para a vida apenas pelas lentes da seleção natural, não há espaço para um sentido, para a ética”, disse. “Só há espaço para ser bem sucedido ou não”.

A proposta de Wallace é a de que se faz necessário adotarmos um caminho do meio que integre a ciência objetiva, a ética subjetiva e a meditação, esta como “um conjunto de métodos para cultivar a virtude”.  Nos últimos 400 anos, lembrou, a forma de fazer ciência esteve baseada em  olhar apenas para fora. Mas saber como é a estrutura de um átomo não responde à questão da vida e do sofrimento. Sabemos nada sobre a consciência. Os dados isolados da física, da matemática e da biologia são insuficientes para dizer o que é a vida. Então, segundo Wallace, está na hora de olhar para dentro. Na hora de usar o ferramental contemplativo para ajudar na investigação do que não está fora de nós. Está na hora de integrar métodos contemplativos e o rigor e os mecanismos de controle da ciência. Isso nos conduzirá a uma ciência da consciência e não apenas a uma crença teológica.

Isso também promoveria a revalorização da busca antiga de felicidade genuína, verdade e virtude, sepultadas para a maioria das pessoas pela visão de mundo materialista e hedonista da atualidade. Seria na verdade, um resgate da eudaimonia, pregada por Aristóteles: a busca da integração da felicidade, verdade e virtude, em vez da ânsia por prazer físico e mental, numa fuga constante da dor, que caracteriza o hedonismo.

FELICIDADE E CONSCIÊNCIA

“Enquanto acreditarmos que a nossa felicidade está lá fora, nós sempre iremos desejar, querer mais e mais”, lembrou Wallace. “Temos de procurar uma outra saída”. E ela está no trio verdade-consciência-êxtase, que experimentamos no processo introspectivo. “Trata-se de um florescer e não significa estar eufórico o tempo todo. A felicidade vem, não de uma verdade simples, mas da verdade última”. Isso é a eudaimonia de Aristóteles e de Santo Agostinho: uma ética profundamente religiosa sem, no entanto, ser estreita e dogmática. É também científica, sem ser arrogante ou materialista.

Uma ética baseada na eudaimonia, segundo Wallace, levaria o homem a comportar-se perante o ambiente natural e todos os seres de uma forma que proporcione a felicidade a todos. Sem olhar para dentro, não percebemos onde está realmente a violência, a doença, o conflito.

CONGRESSO E LIVRO

Alan Wallace foi o principal conferencista do II Congresso Brasileiro de Meditação, promovido pelo Ciência Meditativa e a Unipz-Paraná, de 10 a 12 de junho passado, na PUC-PR. Mas o evento teve ainda a participação de nomes respeitáveis do ambiente de cultura de paz, práticas meditativas e diálogo inter-religioso no Brasil. Entre outros, estavam lá o professor José Hermógenes, um símbolo do Yoga no país, ativo aos 84 anos; a monja Coen Sensei, da tradição Soto Shu-Zen; o lama Padma Samten, da tradição tibetana; e Lia Diskin, diretora da organização Palas Athena e coordenadora de projetos ligados à não-violência.

Durante o congresso, Vitor Caruso Jr., um dos fundadores e coordenador do Ciência Meditativa, lançou seu último livro “Mestres da Cultura de Paz”, uma jornada de encontros esclarecedores com o lama Samten, Hermógenes, monja Coen, Lia Diskin, Leonardo Boff e outros pensadores e divulgadores da cultura de paz no Brasil. O livro tem prefácio de Ela Gandhi, ativista da paz e neta do Mahatma Ghandi. Vítor, que é economista, após o  congresso embarcou para a Índia, onde nos próximos dois meses participará, em mosteiros budistas, de ensinamentos coordenados pelo Dalai Lama. Ele fará uma exposição sobre economia para monges de um mosteiro tibetano.

Paralelamente ao congresso, foram realizados dois painéis. Um da entidade internacional URI (Religiões Unidas), sobre “Religião para Ética, Ciência e Paz”. O outro sobre Psicologia, Ética e Paz.

CONHECER E SABER

Wallace abordou, em três conferências, os temas “Mudando a Realidade – Física, Meditação e Budismo”, “Práticas Meditativas” e Bio-Ética: Ciência da Vida e Valores para um Mundo Melhor”. Hermógenes destacou a necessidade da prática da meditação, como porta de acesso à sabedoria. Ele lembrou a diferença entre conhecer e saber. E explicou: no conhecimento existe o objeto conhecido e o sujeito da cognição, mas ambos estão separados. O conhecimento pode até dar a ilusão de poder, mas ninguém jamais saberá o que é uma laranja sem saboreá-la, apenas lendo tratados sobre a fruta. Na sabedoria, ocorre a totalidade. Sabemos por que vivenciamos, experimentamos e mudamos. E é isso o que a meditação nos proporciona.

 

Cenas do

II Congresso Brasileiro de Meditação - Curitiba/06-05


JM com Vitor Caruso Jr (esq.), organizador do congresso, e o prof. José Hermógenes (dir.)

 

 


Monja zen Coen Sensei guia uma meditação caminhando nos jardins da PUC, em Curitiba

 

 


JM encontra Lia Diskin, diretora da organização Palas Athena (SP), no auditório Gregor Mendel

 

 

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Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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