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É
possível viver uma tradição espiritual, como o Budismo ou o
Cristianismo, sem crenças – isto é, sem os seus
fundamentos mitológicos e sua cosmologia transcendental? Para
o americano Alan Wallace, físico, filósofo da ciência e
doutor em estudos religiosos pela Universidade de Stanford, a
resposta é não. “Não há Budismo sem crenças”, disse
Wallace em sua conferência sobre “Ética, Ciência e
Meditação” durante o II Congresso Brasileiro de
Meditação, realizado em Curitiba. A cosmologia (doutrina que
trata do princípio e da natureza das coisas, do universo)
elaborada por uma tradição é a base de todas as suas
concepções. Wallace é também monge ordenado pelo Dalai
Lama e atualmente um dos grandes escritores e tradutores do
Budismo tibetano no Ocidente.
Não
há Budismo sem crenças, assim como não há Cristianismo sem
fé. O que ocorre atualmente é que alguns cientistas e
estudiosos tentam reduzir o Budismo e outras tradições
místicas – inclusive o Cristianismo -
aos valores que seriam “bons para todos”, deixando
de lado a visão transcendental do ser e do universo dessas
escolas filosóficas. “Os valores descartados são aqueles
incompatíveis com o materialismo”, disse Wallace. “Mas
não podemos viver sem crenças”, afirma. A ciência não
consegue dar um sentido para a vida.
A
palavra de Alan Wallace reforça a advertência de muitos
líderes das tradições espirituais diante da manipulação
dessas doutrinas pelo pensamento materialista e utilitarista.
É o caso do respeitado professor José Hermógenes, pioneiro
do Yoga no Brasil, e um dos palestrantes do II Congresso de
Meditação. Hermógenes lamenta a transformação do Yoga
numa simples ginástica para quem pode pagar. Extraem-se as
técnicas de relaxamento, introspecção e concentração
ensinadas pelas tradições e tentam transformá-las em
produtos “científicos”, muitas vezes vendidos a peso de
ouro e embalados na ilusão de que podem surtir seus mais
amplos efeitos dissociados de uma intenção ética e
transcendental. O conhecimento e a prática disseminados em
nome do amor e da compaixão por todos os seres, ao longo de
séculos, são rotulados com nomes pomposos e negociados em
workshops, sessões especiais com facilitadores etc., às
vezes ao custo de milhares de dólares.
INTEGRAÇÃO
CIÊNCIA E ÉTICA
Wallace
lembrou que a própria ciência ocidental é uma invenção de
filósofos e religiosos cristãos que, em suas pesquisas,
buscavam entender Deus pelo conhecimento da estrutura e do
funcionamento do universo. Isaac Newton, o pai da física
clássica, por exemplo, era religioso. E mesmo Albert
Einstein, no século XX, expôs a sua espiritualidade. A
idéia de que ciência e ética (e espiritualidade) são
incompatíveis surgiu depois e vem sendo alimentada pelo
materialismo e hedonismo dominantes no mundo ocidental. “Quando
olhamos para a vida apenas pelas lentes da seleção natural,
não há espaço para um sentido, para a ética”, disse. “Só
há espaço para ser bem sucedido ou não”.
A
proposta de Wallace é a de que se faz necessário adotarmos
um caminho do meio que integre a ciência objetiva, a ética
subjetiva e a meditação, esta como “um conjunto de
métodos para cultivar a virtude”.
Nos últimos 400 anos, lembrou, a forma de fazer
ciência esteve baseada em
olhar apenas para fora. Mas saber como é a estrutura
de um átomo não responde à questão da vida e do
sofrimento. Sabemos nada sobre a consciência. Os dados
isolados da física, da matemática e da biologia são
insuficientes para dizer o que é a vida. Então, segundo
Wallace, está na hora de olhar para dentro. Na hora de usar o
ferramental contemplativo para ajudar na investigação do que
não está fora de nós. Está na hora de integrar métodos
contemplativos e o rigor e os mecanismos de controle da
ciência. Isso nos conduzirá a uma ciência da consciência e
não apenas a uma crença teológica.
Isso
também promoveria a revalorização da busca antiga de
felicidade genuína, verdade e virtude, sepultadas para a
maioria das pessoas pela visão de mundo materialista e
hedonista da atualidade. Seria na verdade, um resgate da
eudaimonia, pregada por Aristóteles: a busca da integração
da felicidade, verdade e virtude, em vez da ânsia por prazer
físico e mental, numa fuga constante da dor, que caracteriza
o hedonismo.
FELICIDADE
E CONSCIÊNCIA
“Enquanto
acreditarmos que a nossa felicidade está lá fora, nós
sempre iremos desejar, querer mais e mais”, lembrou Wallace.
“Temos de procurar uma outra saída”. E ela está no trio
verdade-consciência-êxtase, que experimentamos no processo
introspectivo. “Trata-se de um florescer e não significa
estar eufórico o tempo todo. A felicidade vem, não de uma
verdade simples, mas da verdade última”. Isso é a
eudaimonia de Aristóteles e de Santo Agostinho: uma ética
profundamente religiosa sem, no entanto, ser estreita e
dogmática. É também científica, sem ser arrogante ou
materialista.
Uma
ética baseada na eudaimonia, segundo Wallace, levaria o homem
a comportar-se perante o ambiente natural e todos os seres de
uma forma que proporcione a felicidade a todos. Sem olhar para
dentro, não percebemos onde está realmente a violência, a
doença, o conflito.
CONGRESSO
E LIVRO
Alan
Wallace foi o principal conferencista do II Congresso
Brasileiro de Meditação, promovido pelo Ciência Meditativa
e a Unipz-Paraná, de 10 a 12 de junho passado, na PUC-PR. Mas
o evento teve ainda a participação de nomes respeitáveis do
ambiente de cultura de paz, práticas meditativas e diálogo
inter-religioso no Brasil. Entre outros, estavam lá o
professor José Hermógenes, um símbolo do Yoga no país,
ativo aos 84 anos; a monja Coen Sensei, da tradição Soto
Shu-Zen; o lama Padma Samten, da tradição tibetana; e Lia
Diskin, diretora da organização Palas Athena e coordenadora
de projetos ligados à não-violência.
Durante
o congresso, Vitor Caruso Jr., um dos fundadores e coordenador
do Ciência Meditativa, lançou seu último livro “Mestres
da Cultura de Paz”, uma jornada de encontros esclarecedores
com o lama Samten, Hermógenes, monja Coen, Lia Diskin,
Leonardo Boff e outros pensadores e divulgadores da cultura de
paz no Brasil. O livro tem prefácio de Ela Gandhi, ativista
da paz e neta do Mahatma Ghandi. Vítor, que é economista,
após o congresso
embarcou para a Índia, onde nos próximos dois meses
participará, em mosteiros budistas, de ensinamentos
coordenados pelo Dalai Lama. Ele fará uma exposição sobre
economia para monges de um mosteiro tibetano.
Paralelamente
ao congresso, foram realizados dois painéis. Um da entidade
internacional URI (Religiões Unidas), sobre “Religião para
Ética, Ciência e Paz”. O outro sobre Psicologia, Ética e
Paz.
CONHECER
E SABER
Wallace
abordou, em três conferências, os temas “Mudando a
Realidade – Física, Meditação e Budismo”, “Práticas
Meditativas” e Bio-Ética: Ciência da Vida e Valores para
um Mundo Melhor”. Hermógenes destacou a necessidade da
prática da meditação, como porta de acesso à sabedoria.
Ele lembrou a diferença entre conhecer e saber. E explicou:
no conhecimento existe o objeto conhecido e o sujeito da
cognição, mas ambos estão separados. O conhecimento pode
até dar a ilusão de poder, mas ninguém jamais saberá o que
é uma laranja sem saboreá-la, apenas lendo tratados sobre a
fruta. Na sabedoria, ocorre a totalidade. Sabemos por que
vivenciamos, experimentamos e mudamos. E é isso o que a
meditação nos proporciona.
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Cenas
do
II
Congresso Brasileiro de Meditação - Curitiba/06-05

JM com
Vitor Caruso Jr (esq.), organizador do congresso, e o prof.
José Hermógenes (dir.)

Monja
zen Coen Sensei guia uma meditação caminhando nos jardins da
PUC, em Curitiba

JM
encontra Lia Diskin, diretora da organização Palas Athena
(SP), no auditório Gregor Mendel
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