A
medicina convencional, baseada na alopatia, no combate aos
sintomas e em intervenções de modo geral agressivas ao
organismo do paciente, está aos poucos perdendo a sua
posição hegemônica nos países ocidentais. Surpreendida
pela revolução comportamental que varreu o Ocidente nas
últimas décadas do século XX, questionando vários dos
princípios iluministas que regem a cultura européia – e
seus herdeiros nas Américas -, a medicina convencional
passou a dividir espaço com a homeopatia, a acupuntura, o
yoga, a meditação e dezenas de outras práticas
terapêuticas não-invasivas, quase todas de origem
oriental, antes confinadas entre nós ao terreno do
curandeirismo.
Chame-se isso de medicina alternativa ou complementar,
integrativa ou holística, a verdade é que algo está
mudando numa área vital para as pessoas: a manutenção da
sua saúde. E a tendência de mudança não reflete apenas o
interesse dos indivíduos por tratamentos mais suaves e com
menos riscos de efeitos adversos. Há aí também indícios
de uma abertura em direção a um novo paradigma científico,
cujo impacto na maneira de o homem lidar com a medicina, com
as doenças e com sua própria vida promete ser avassalador.
A velocidade com que as coisas estão acontecendo espanta.
Atualmente, 75% das escolas de medicina dos Estados Unidos
já oferecem cursos de especialização em terapias
alternativas ou desenvolvem estudos sobre o tema. Calcula-se
que metade dos 270 milhões de americanos costuma recorrer a
algum tipo de tratamento não-convencional, o que representa
um enorme fator de pressão sobre os prestadores de
serviços de saúde. Sem falar nos lucros de um mercado que
se constrói à margem da medicina convencional e que já
movimenta 30 bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos.
É o próprio governo americano, através do Instituto
Nacional de Saúde (NIH), um órgão equivalente ao
Ministério da Saúde no Brasil, que comanda um mutirão de
pesquisas para medir a eficácia dessas terapias. Na
Inglaterra já há hospitais formados apenas por homeopatas
e o Canadá acaba de tornar-se o primeiro país das
Américas a reconhecer a medicina tradicional chinesa como
especialidade médica e a autorizar a formação regular de
profissionais nessa área.
O fenômeno se repete no Brasil, ainda que em menor escala.
O país possui cerca de 14 000 médicos homeopatas, 48 vezes
mais do que há duas décadas, quando a homeopatia foi
reconhecida como especialidade médica pela Associação
Médica Brasileira. Mais de 5 000 médicos se dedicam à
acupuntura no país, outra terapia alternativa só há pouco
elevada à condição de especialidade médica. Da mesma
forma, sob o pretexto de debater a humanização da medicina,
cresce o número de médicos alopatas, formados à luz da
medicina oficial, que promovem reuniões discretas e
encontros públicos nos quais as terapias alternativas são
apresentadas como métodos substitutivos de tratamentos
baseados em drogas e cirurgias. "Está na hora de
admitirmos que existem outras formas de curar doenças",
diz a cardiologista Diana Ribeiro Dantas, que coordenará o
próximo encontro a ser realizado em Natal, em junho.
O adjetivo holístico é, com certeza, o que melhor expressa
a natureza desses novos tipos de cura. O holismo é uma
teoria que vê o homem como um todo indivisível,
impossível de ser explicado como se seus componentes
físico, psicológico e espiritual pudessem existir
separadamente. A medicina holística é, assim, a antítese
do modelo biomédico, mecanicista, que se concentra no
estudo isolado das partes da "máquina" humana e
dos processos químicos específicos que a fazem funcionar.
Diante de um doente qualquer, um terapeuta holístico
subestimará a classificação da doença, voltando a
atenção para o estilo de vida do doente, suas relações
sociais, seu estado emocional, sua alimentação. Esse
processo de interação com o paciente faria toda a
diferença. As entrevistas demoradas, um traço marcante da
medicina alternativa, transformam consultas simples em
verdadeiras sessões de terapia psicológica nas quais
laços de confiança e afeto unem o doente ao terapeuta.
As principais terapias holísticas compõem o repertório de
recursos da medicina tradicional chinesa e da medicina
ayurvédica, da Índia, com seus sistemas inspirados no
taoísmo e no hinduísmo. A grande exceção é a homeopatia,
criada pelo médico alemão Samuel Hahnemann no século
XVIII. A rápida expansão de todas elas, no entanto, só
foi possível depois que algumas descobertas da ciência no
século XX proporcionaram outro tipo de sustentação às
idéias holísticas.
"As teorias da física quântica, dos sistemas auto-organizadores
e da psicologia transpessoal demonstraram com as próprias
ferramentas da ciência cartesiana-newtoniana que somos
parte de algo mais vasto que os nossos organismos",
afirma o neurocirurgião fluminense Francisco di Biase. Ele
é um dos autores do livro "Science and the primacy of
consciousness" (A ciência e a primazia da consciência),
em parceria com especialistas americanos em física
quântica e psicologia transpessoal, ainda inédito no
Brasil. O grande aval foi dado pela teoria quântica, ao
demonstrar que as unidades subatômicas da matéria são
abstratas e podem se apresentar ora como partículas, ora
como ondas. Tais padrões dinâmicos, segundo a teoria,
formam as estruturas estáveis que constituem a matéria e
lhe conferem o aspecto sólido no nível macroscópico, que
percebemos a olho nu. Ou seja: tudo o que enxergamos,
inclusive nossos corpos, seria resultado da condensação de
energias, padrões dinâmicos imateriais. Uma explicação
muito semelhante à cosmovisão de antigas doutrinas
místicas.
"É bobagem", rebate o neurofisiologista Renato
Sabbatini, da Unicamp. "Os princípios da mecânica
quântica só se aplicam ao mundo subatômico e não existe
nada que comprove efeitos quânticos na consciência e nas
estruturas macromoleculares". Verdade? "Sim, mas
só em parte", treplica o indiano Harbas Lal Arora,
doutor em física pela Universidade de Waterloo, no Canadá,
e terapeuta holístico com atuação em hospitais de
Fortaleza. O próprio Einstein, autor da equação que
demonstra que a matéria é energia condensada, no último
ano de sua vida, segundo Harbas, admitiu a existência de
formas de energias sutis que ainda não podem ser medidas
diretamente mas que são muito poderosas. Tais energias,
deduz Harbas, manifestariam-se, entre outras formas, como
emoções, sentimentos, vontades e intuições. E seus
efeitos no corpo poderiam ser mensurados por meio de
mudanças nas ondas cerebrais, ritmos respiratório e
cardíaco e secreções glandulares. "São energias que
atuam no nível subatômico. Seus campos transcendem às
limitações do espaço, do tempo e das energias físicas. E
elas têm extrema relevância nos estados de doença, saúde
e bem-estar", diz Harbas.
Ao espetar agulhas em pontos estratégicos do corpo, um
acupunturista chinês se propõe a desbloquear as trilhas,
conhecidas como meridianos, por onde fluiria a energia
vital, o chi. Um médico convencional dirá que ele apenas
estimula pontos especiais do sistema nervoso capazes de
provocar a liberação pelo cérebro de endorfinas,
neurotransmissores de ação sedativa cujas moléculas se
assemelham às da heroína. Já a homeopatia, aos olhos da
medicina convencional, não conta com explicações
plausíveis. A tese homeopata parte do princípio de que
qualquer mal pode ser curado por uma substância vegetal ou
mineral que produza em um homem são o mesmo sintoma da
doença (exatamente o oposto do que faz a alopatia), mas
nesse caso utiliza-se apenas a quintessência do princípio
ativo, ou seja, a sua energia.
"Medicina alternativa é apenas o nome politicamente
correto para o que normalmente chamamos de fraude", diz
Leon Jaroff, ex-editor da revista americana Discover,
especializada em ciência. O rápido crescimento da medicina
alternativa e a livre prática de suas modalidades, de fato,
trazem embutido o risco do surgimento de picaretagens ou, no
mínimo, esquisitices como a urinoterapia, que consiste em o
paciente beber a própria urina, um excremento rico em
toxinas. Só que, de um lado, há doutrinas orientais com
milhares de anos de eficácia. E, de outro, até defensores
ferrenhos da medicina alopática admitem que as terapias
holísticas produzem, sim, um benefício, mesmo que não
exatamente por causa de suas propriedades intrínsecas.
"O que funciona é o efeito placebo", afirma
Renato, numa referência aos resultados obtidos com grupos
de controle em pesquisas de medicamentos alopáticos. Tais
indivíduos, tratados com substâncias sem ação
específica sobre os sintomas da doença, como pílulas de
farinha e açúcar, acabam apresentando sinais de melhoria
simplesmente por suporem estar recebendo o remédio real.
"A crença do paciente no tratamento é fundamental e,
sabe-se hoje, que ela responde por 50% da eficácia de
qualquer medicamento, inclusive antidepressivos", diz
Renato. O assunto ganhou tamanha importância no meio
científico que o NIH promoveu em novembro passado um painel
com cientistas das principais universidades americanas com o
único propósito de debater a adoção de placebos na
rotina médica. Seria um meio de evitar o uso excessivo ou
desnecessário de drogas. "O efeito placebo é uma
conseqüência da participação do estado psíquico na cura
do paciente, o que nos leva a inferir que a saúde física
resulta do bem-estar psicossomático. Infelizmente essa
inter-relação entre corpo e mente é praticamente
desprezada na medicina convencional", afirma Harbas.
Holistas como o psicólogo Giulio Vicini, membro da equipe
que implanta, no Senac de São Paulo, um curso de
graduação em medicina tradicional chinesa, e a
especialista em alimentação e educação Hildegard Richter
prevêem que a medicina do futuro será totalmente "vibracional",
baseada nas energias sutis e nos processos psíquicos. Mas a
médio prazo o que se espera é uma composição entre
sistemas médicos divergentes. "A medicina acadêmica e
a medicina alternativa não são antagônicas, mas
complementares", lembra o homeopata paulistano Antonio
César Ribeiro Deveza da Silva. O único receio de boa parte
dos terapeutas holísticos é que a medicina oficial acabe
assimilando as terapias alternativas, adaptando-as ao modelo
biomédico e restringindo seu exercício aos médicos.
"Isso desfiguraria por completo aspectos terapêuticos
que são parte de um sistema coerente," afirma Eduardo
Alexsander Amaral de Souza, terapeuta oriental e reichiano
no Rio de Janeiro.