Ano
IX
Nº 332
Texto
publicado
na revista Viagem e Turismo, edição de setembro de 2003
Outras
reportagens
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A
Disneylândia do Nordeste
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Praias
lindas e ensolaradas, lagoas, dunas, dromedários,
bugues, pratos deliciosos, gente simpática, agito e
tranqüilidade. Em Natal, Pipa e Baía Formosa
você escolhe o brinquedo e se diverte pra valer
Por Jomar Morais
/ Fotos Luis Morais Para
ter acesso aos textos de José Eduardo Camargo sobre o
litoral norte, a todas as imagens do fotógrafo Luis
Morais, às dicas completas sobre hotéis,
restaurantes, locais de agito, passeios e pacotes
econômicos e ainda ao Guia de Viagem, adquira a
revista na banca mais próxima |

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NATAL,
com
emoção
Natal
é sedutora. Pergunte à paulista Denise Cunha Lopes, que
chegou à cidade há 14 anos e nunca mais foi embora. “Não
resisti aos encantos daqui”, explica Denise do jeito mais óbvio.
Pudera. Espreguiçada entre o cinturão de dunas e a orla
sinuosa, Natal tem em média 300 dias de sol por ano e respira
o ar mais puro do continente, segundo a Nasa. Uma perfeita
conjunção de fatores que fazem do lugar um sítio ideal para
o prazer. Denise agora recebe turistas no seu Salsabar, um
barzinho da hora que, como diz o nome, embarcou na onda da
salsa e do merengue. Mas encontrar forasteiros à frente de
bares, restaurantes e pousadas já não é algo incomum na
cidade, principalmente em Ponta Negra, antiga vila de
pescadores que virou bairro chique e é o centro do agito. É
lá que estão os hotéis de luxo, ao longo da Via Costeira, e
também as pousadas aconchegantes e econômicas, os bons
restaurantes e os barzinhos incrementados... Instale sua base
e aproveite.
Comecei
pela atração mais próxima: a praia. No domingo até vale
fugir do pedaço, tal a multidão esparramada na areia, ante o
famoso Morro do Careca. Mas de segunda a sexta dá para curtir
com razoável tranqüilidade toda a beleza de uma das enseadas
mais lindas do Brasil, ainda enfeitada de jangadas e de
personagens vindos do vilarejo que resiste por trás dos edifícios.
A massagista Zezé é uma dessas figuras que, debaixo de um
guarda-sol, ajuda banhistas a relaxar e dá lições de vida
com a simplicidade da sua. Não espere encontrá-la por lá no
domingo, justamente quando poderia ganhar mais dinheiro (ela
cobra 20 reais por massagem). “É o dia do meu descanso”,
justifica. E como não pensar em descanso diante de tanta
tentação?
Considere
o passeio de bugue nas dunas de Genipabu, 24 quilômetros ao
norte, que preferencialmente deve ser feito pela manhã. É clássico,
todo mundo recomenda, mas não dá para deixar de lado. É emoção
pura sobre o areal, sem falar no cenário de cinema que é a
praia de Genipabu. O circuito inclui paradas para banho na
lagoa e passeio sobre dromedários. Aproveite para apreciar de
cima da duna a melhor vista panorâmica de Natal e, quando
estiver satisfeito, retorne ao sul para um programinha básico
antes de deleitar-se com o que não está roteiro. Vale a pena
visitar o maior cajueiro do mundo em Pirangi, com os seus 8
400 metros de copa, tirar dois dedos de prosa com a rendeira
Maria Geralda, que exerce a arte dos bilros à sombra da árvore,
e depois saborear a paçoca de carne-de-sol do restaurante Paçoca
de Pilão, pertinho dali. Adalva Dias Rodrigues, dona do
restaurante, nomeado entre os melhores pelo Guia Quatro Rodas,
cuida pessoalmente da cozinha e ouve pedidos dos clientes.
“Natal tem muitas belezas naturais, uma culinária
excelente, mas o nosso melhor atrativo é o calor humano”,
diz. A paçoca socada no pilão foi inventada pelos sertanejos
e consagrada durante as grandes secas que assolaram o
nordeste, quando então a mistura de carne seca, farinha e
condimentos era usada para alimentar retirantes que seguiam a
pé para as cidades. Há l2 anos, nas mãos de Adalva, o prato
ganhou requintes e fama.
Barriga
cheia, é hora de encher os olhos com paisagens que não estão
nos mapas e, para isso, basta rodar apenas mais 10 quilômetros
para o sul e entrar na trilha que leva ao espetáculo das sete
lagoas nas dunas de Búzios. Esses pequenos lagos gêmeos,
antes só observados durante a decolagem dos aviões, só
agora estão sendo desbravados. Tudo ainda é primitivo na área.
Não há bar nem restaurante e a casinha fica atrás da moita,
mas a recompensa vale o sacrifício – que, aliás, pode ser
feito também a pé, com mais esforço e mais deleite. As
lagoas são verdadeiros oásis tropicais, abastecidos por
pequenas nascentes e pela água das chuvas e unidos por canais
que serpenteam entre as dunas.
No
final da tarde, é uma boa refestelar-se nas redes do Mirante
dos Golfinhos para ver a performance dessas simpáticas
criaturas, no mar de Tabatinga, e restaurar energias para,
enfim, encarar a noite natalense. O jantar de classe é
garantido por restaurantes que costumam aliar receitas
regionais ao melhor da cozinha internacional. Depois tem forró,
rock, salsa... Experimente o camarão papa-jerimum do
restaurante Camarões, em Ponta Negra. Uma delícia preparada
com molho cremoso de abóbora (jerimum) e queijo coalho,
servida na moranga com acompanhamento de arroz com brócolis.
Prefere massa? Vá ao italiano Buongustaio, um dos
restaurantes mais sofisticados, e caros, da cidade. Mas se
quer cair no agito, considere antes o seu perfil. O turista
comportado deve escolher entre os shows folclóricos do Zas-Trás,
no centro da cidade, ou o Forró com Turista, que rola às
quintas-feiras no Centro de Turismo. A galera antenada tem
encontro marcado na rua Dr. Manoel Araújo, a 200 metros do
calçadão de Ponta Negra. Ali, a partir da meia-noite, o rock
e o reggae comem solto no Taverna Pub, o bar medieval do
Hostel Lua Cheia (exceto na quinta-feira, quando reina a música
caribenha). No Salsabar, um bar rústico erguido sob cajueiros
pela Denise (lembra?), a mistura de ritmos calientes
e caipifrutas preparadas com rum e tequila atrai brasileiros e
europeus a fim de amizade. Então, o que está esperando?
Divirta-se!
PIPA
, com
agito
Nem
foi preciso que eu chegasse à vila encarapitada sobre a falésia
para render-me aos encantos de Pipa, uma das praias mais
lindas do Nordeste. O espetáculo começa ainda na estrada,
junto à vizinha Tibau do Sul, com a visão deslumbrante – e
rara - da lagoa desembocando no mar, em meio a encostas
avermelhadas.
A partir daí é só deleite. O esplendor retilíneo da
Praia do Madero, na entrada, a serena Baía dos Golfinhos, as
ondas bravas da Praia do Amor, preferida dos namorados e dos
surfistas.
Um charme natural irresistível que se soma a outro
criado por quem mora lá: Pipa tem a sedução do sabor, seja
num prato suculento de carne ou fruto do mar ou na delicadeza
de um crepe.
A
ruazinha principal (que a boa vontade local rotulou de avenida
Baía dos Golfinhos) e arredores assemelham-se a uma praça de
alimentação tosca, com restaurantes e bares diversos, muitos
sob estruturas de madeira e decorados com criatividade. A
variedade gastronômica é feita de iguarias que vieram de
longe - a culinária francesa, italiana, alemã, japonesa, suíça
- e da região, como o caldinho de camarão ou sururu. Não dá
para não recomendar o arroz do mar do restaurante Cruzeiro do
Pescador - espécie de paella brasileira com camarão, lula,
polvo e ostras. Há também boa comida francesa no Papillon e
no La Provence, massas italianas legítimas no Al Buchetto,
cujo chef e dono veio da Itália, e sushi de salmão no recém-inaugurado
Susi Kinha.
O
jeito simples de vilarejo foi conservado, mas Pipa está se
sofisticando. Após anos de aversão, bares e restaurantes
finalmente se curvaram à conveniência do cartão de crédito.
E nos últimos meses até uma galeria de lojas finas, com
iluminação digna de shopping center, surgiu na rua
principal. A nota amarga é que os preços dos serviços, que
já não eram baratos, acompanharam esse movimento. Na
elegante Toca da Coruja, uma das melhores pousadas do país, a
diária em um chalé duplo está custando 450 reais. É quanto
vale o conforto de ficar instalado na mata atlântica, num
ambiente que mistura decoração rústica, requinte no
atendimento e efeitos de luz e som altamente relaxantes. Para
quem não está disposto a abrir a mão, é bom dizer que,
apesar de tudo, a vila continua repleta de pousadas simples e
acolhedoras onde é possível alojar-se decentemente pagando
em torno de 100 reais em apartamento duplo.
Pipa
não é exatamente um lugar de sossego (para isso existe a
tranqüila Tibau do Sul, com seus hotéis lotados de famílias
e estrangeiros idosos, mais interessados na paz de um pôr-do-sol
na lagoa que namora o mar). A maioria dos bares e restaurantes
continuam abrindo só no final da tarde, mas pela manhã rola
uma muvuca ensurdecedora na praia do centro, com dezenas de
barraquinhas e MPB no mais alto volume. À noite, a galera
bonita e ruidosa faz a festa em frente ao Blue Bar, na rua
principal, com rock pesado, shows de capoeira e performances
que funcionam como aquecimento para o ápice do agito na Boate
dos Calangos, depois das 2 da madruga. “Pipa troca a noite
pelo dia”, diz o garçon Walter Antunes.
Quem prefere programas alternativos – se é que se
pode chamar esses aí de convencionais -, tem a opção de
desligar sentindo a onda quebrar debaixo dos pés no barco bar
Garagem, invenção do argentino Marcelo Daniel Leon, que
desembarcou em Pipa na década passada e foi ficando,
ficando... Chega-se ao Garagem, instalado sobre uma estrutura
de madeira em forma de navio, na praia do centro, descendo a
falésia por uma escada de corda. No bar, drinques fortes são
dosados com reggae e rap de bom gosto diante de um telão onde
desfilam clipes, perfeitamente dispensáveis nas noites de lua
cheia.
Se
nada disso existisse, Pipa ainda valeria a pena pela impagável
opção de caminhar pela praia até a Baía dos Golfinhos,
onde os próprios dão as caras no final da tarde, ou avançar
na direção contrária pela deserta Praia do Amor. Seguindo
adiante chega-se finalmente à área de reserva ambiental de
tartarugas marinhas da Praia das Minas (pode-se alcançar a
reserva também de bugue), um santuário ecológico. Para
conhecer esse paraíso, no entanto, é melhor correr. Alguns
hotéis e pousadas já estão sendo construídos sobre as
dunas da região, o que de certo modo cerca de dúvida o
futuro dessa linda paisagem.
BAÍA
FORMOSA,
sim
Pense
numa enseada guarnecida por uma enorme falésia em meia lua,
200 barquinhos flutuando sobre as águas reluzentes e
golfinhos exibidos mostrando o corpo em saltos longos. Você
acaba de imaginar o entardecer em Baía Formosa, um dos
trechos mais bonitos do litoral do Rio Grande do Norte. O
espetáculo é inesquecível e parece mexer com a alma dos
nativos. Sob os raios dourados do crepúsculo, caiçaras
invadem o mirante para contar estórias de pescador e
relembrar o tempo em que Baía Formosa nem sequer conhecia o
dinheiro. “A gente trocava peixe por farinha”, diz Antonio
Vitorino Neto, 70 anos de idade, há 60 no mar.
E
essa cena é só o começo. Além das praias quase virgens, ao
longo de 27 quilômetros, fiz a trilha de bugue na Mata
Estrela, maior reserva de mata atlântica sobre dunas, e por
alguns instantes me imaginei na pele do desbravador português
deslumbrado ao dar de cara com tal espetáculo de
biodiversidade, no século XVI. Ver de perto árvores de
pau-brasil, as gameleiras floridas, jatobás e palmeiras e, no
meio deles, as levas de sagüis, tejuaçus, guaribas e aves
silvestres dá uma enorme sensação de paz e de integração
com a natureza.
O ponto alto do programa é o banho na Lagoa de
Araraquara, a chamada Lagoa da Coca-Cola, cujas águas
escurecidas pela ação de raízes e minerais têm atraído,
principalmente... portugueses. Pode mergulhar. Apesar da cor
estranha, a água é limpa e não tem gosto de xarope.
O
sossego de Baía Formosa vale pelo menos dois na cidadezinha.
Não existem muitas opções de hospedagem, mas os chalés da
pousada Chalemar, de frente para a enseada, são confortáveis
e bem servidos,além de serevirem como ponto de partida para
passeios ecológicos. A maioria dos visitantes, no entanto,
prefere ainda hospedar-se em Pipa e tem como meta chegar a
Barra do Cunhaú, 10 quilômetros adiante de Baía Formosa,
para apreciar um outro espetáculo da natureza - o estuário
do rio Cunhaú, com seus manguezais recheados de caranguejos e
mariscos – e comer o melhor camarão na grelha da região no
restaurante Solimar, dos gaúchos Neudir e Susana. O prato
suculento é preparado com um quilo do crustáceo. Se você
chegar até Cunhaú, não há por que não esticar o passeio
à vizinha Sagi, última praia potiguar na fronteira com a
Paraíba, e encerrar o dia de um jeito peculiar. O bugue deixa
na porta da cachaçaria Ombak, onde há 11 anos o químico
paulista Jovino Soares inventa sabores e pileques juntando
pinga, raízes e frutos da mata atlântica. Prove-os. Depois
de alguns goles talvez você possa, enfim, perceber toda a
filosofia que há na placa de saudação à clientela: “Quem
não bebe, não vê o mundo girar”
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