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Ano IV // Nº 267 - Texto publicado na edição de 16 de Dezembro de 1998 da revista Exame


RECIFE - Vocação para a tecnologia

Por JOMAR MORAIS, de Recife

Há uma boa e uma má notícia sobre Recife, a décima melhor cidade brasileira para a venda de produtos e serviços. A má é que muitos recifenses andam de astral baixo, acabrunhados porque a cidade, que por muito tempo foi o primeiro pólo industrial do Nordeste, deixou de atrair investimentos de porte nos últimos anos. (Em alguns casos, até perdeu algumas de suas indústrias para estados como a Bahia e o Ceará.) A boa notícia é que os recifenses começam a entender que sua cidade passa por um período de adaptação econômica, rumo a uma vocação mais sintonizada com as das grandes metrópoles do mundo: ser um pólo avançado de serviços e de tecnologia.

Alguns evidências confirmam essa mudança.

* Recife tem hoje a maior concentração regional de empresas de consultoria em computação e desenvolvimento de softwares. É o maior pólo de informática do nordeste.

* A cidade possui o maior número de hospitais e o melhor equipamento médico da região. Há algum tempo é vista como o segundo pólo médico do país.

* Centro histórico dos mais importantes, depois de um período de retração Recife vê aumentar o número de turistas que vão em busca de seus atrativos.

Há mais. Privilegiada por sua posição geográfica, no centro da costa nordestina e equidistante de Salvador e Fortaleza, Recife experimenta também a expansão de vários ramos do comércio, como o de alimentos e o de bebidas. E, ao contrário do que parece à primeira vista, não estancou o seu crescimento industrial. É verdade que a cidade, seguindo a tendência do próprio estado de Pernambuco, cresceu menos do que podia no setor secundário, mas alinha conquistas que justificam o segundo lugar que detém no ranking industrial nordestino. Dos 173 novos investimentos industriais emcursono estado, no valor de 1,6 bilhão de dólares, mais da metade está localizados na capital ou em sua região metropolitana.

Com uma população de 1,4 milhão, Recife movimentará 5,5 bilhões de dólares em despesas de consumo até o final do ano. Esses gastos correspondem a um terço do potencial de consumo de Pernambuco. Boa parte desses deles correrá por conta das classes A e B, segmentos que abrangem 26,1% dos recifenses, índice superior à média brasileira de 22,4%. Isso explica porque o consumo per capita na cidade, estimado em 3 990 dólares, bate o de Salvador e o de Fortaleza e está 28% acima da média país. Importantes também no conjunto da população e do mercado são as classes D e E. Juntas, elas totalizam 53% dos recifenses e ajudam a empurrar para frente as vendas de alimentos, de bebidas e de uma gama de produtos populares.

Que o diga quem é do ramo. "No meu setor só conheço sucesso", afirma Sidney Wanderley da Silva, dono da Distribuidora Guararapes de Bebidas (DGB), uma das referências do pólo de bebidas de Pernambuco. Há um ano, Silva passou a fabricar seu próprio guaraná, o Frevo, após investimento de 9 milhões de reais. Hoje sua marca detém 25% do mercado pernambucano de guaranás e quase 10% de participação do Rio Grande do Norte à Bahia. Outra prova dos bons ventos no setor é a Lanesa, indústria de latas do Grupo Latasa. A empresa já investiu 70 milhões de reais na fábrica instalada na região metropolitana de Recife, mas quer ir além. Vai transferir do sul de Minas Gerais a sua fábrica de tampas, adicionando mais 20 milhões de reais ao seu projeto nordestino.

Foi no Recife que surgiu e prosperou o Bompreço, a terceira rede de supermercados do país. E é lá que está o Shopping Center Recife, o maior do país em área bruta locável, com suas 465 lojas ao longo de 81 600 metros quadrados.

Mas nada se compara à efervescência da área de serviços de ponta. Quer um exemplo? Eis a história da MidiaVox, uma das 40 empresas do pólo de informática de Recife. Em 1994, Tuca Paes de Andrade, administrador de empresas, Garibaldi Galvão Rocha, engenheiro de telecomunicações, e Alciedes Niceas Pires, analista de sistemas, abriram, com apenas 2 000 dólares, um escritório de consultoria e desenvolvimento. Seuobjetivo era conceber softwares integradores que, rodando em hardwares produzidos pela americana Dialogic, permitem o atendimento automático de ligações telefônicas, com consultas a bancos de dados, além dos serviços de correio de voz, respostas via fax e os populares 0900. O trio se deu bem. Quatro anos depois, a MidiaVox vai faturar 1,2 milhão de dólares, exibindo em seu portfólio clientes como a Rede Globo Nordeste - onde foi responsável pelas primeiras experiências de TV interativa no Brasil - o Grupo Bompreço e a Teleceará.

Sair de Recife? Nem pensar. Instalada em duas salas que somam só 65 metros quadrados, a empresa opera com apenas cinco profissionais, aí incluídos os três sócios, e está pronta para continuar crescendo sem inchar os custos. "Nosso patrimônio é intelectual", diz Tuca Andrade. Segundo ele, há muito para crescer ali: anaualmente,o setor de informática movimenta 1 bilhão de dólares no estado. "Fomos pioneiros no Nordeste e em toda a região só temos dois concorrentes", afirma.

Outra vertente de oportunidades está no turismo, cujos números voltam a animar os empreendedores. Até 31 de dezembro deve passar por Recife 1 milhão de visitantes, 32% mais que há três anos. A cidade, que tem como um de seus pontos fracos uma infra- estrutura turística defasada, começa a ver surgir novos hotéis e cria pólos de lazer como o do Recife antigo, que abriga em casarões centenários um complexo de bares e casas de show.

Até a procura pelos hospitais do pólo médico, está criando novos nichos de negócios turísticos. A construtora Moura Dubeux, por exemplo, está erguendo, próximo aos hospitais, um hotel com 80 apartamentos especialmente projetados para atender a pacientes de outras cidades e seus acompanhantes. A idéia é reproduzir a experiência de centros médicos americanos, como Cleveland e Houston, servidos por boas redes de hotelaria.

Já operam em Recife 350 agências de viagem, a maioria de pequeno porte. "É um número exagerado", diz a presidente da Abav-PE, Ana Paula Correia. Segundo Ana Paula, o excesso de oferta pode causar mais danos que benefícios: como muitos dos empreendedores do setor não têm experiência no ramo, podem comprometer a qualidade dos serviços prestados.

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