Há
25 anos deslumbrei-me com o mar. É a primeira imagem de grandeza
que guardo hoje. Aquela imensidão de águas. Tinha um quê de
infinito. Talvez tenha sido também minha primeira ligação com
Deus. Imaginei quem poderia criar uma coisa grande daquelas. Tinha
eu meus quatro anos. Era criança. Época em que tudo é novidade,
surpresa, deslumbramento. E a vida era uma descoberta gostosa.
Cada quarteirão, uma surpresa.
Há
20 anos, lembro bem, me foi despertada a primeira paixão.
Coisa besta de menino que se apaixona sempre pela garotinha mais
bonita e disputada da classe. Sonhava com ela mesmo durante as
aulas. Beijos inocentes, segredos mútuos, mãos dadas;,abraços a
toda hora. Alguns mais apertados. Outros, olhando nos olhos, bem
fundo. O beijo também podia ser igual ao filme que assisti
escondido da mãe. Por que não? Era época em que o amor tinha
mais sentido que os livros.
Há
15 anos, aquele amor quase platônico de outrora corroia a mente.
Perturbava. Era preciso estar junto. Nada de sonhar no meio da
aula com um beijo quase impossível. A vontade ensejava
iniciativa. E nem precisava ser direcionada àquela mais bonita da
classe. O objeto de desejo agora tinha charmes mais definidos:
timidez, simpatia, inteligência, um sorriso contagiante e uma
pintinha preta perto da orelha. Um olhar de soslaio percebia os
seios pequeninos e um belo par de pernas, juntinhas, a esconder um
mistério a ser desvendado.
Há
10 anos, eu desconfiava saber o que era o amor. Namoros intensos.
Grandes paixões. Pensava mesmo ter encontrado o elixir da vida, o
sentimento que despertava a inspiração de poetas e prosadores.
Uma vontade de estar junto incontrolável; de beijar, morder. Nem
desconfiava, mas todo aquele furor era mais sexo do que carinho.
Era tesão. A imaturidade para com as coisas do coração
confundiu os sentimentos. E o único sentimento saciado era o do
desejo.
Há
5 anos, os livros, os filmes e a carência ensinaram-me o que era
o amor. Aos 24 anos, compreendi por teorias o que era este
sentimento sublime. Os namoros intensos continuavam aqui e ali.
Mas faltava o “algo mais”: aquele amor incondicional, construído
aos poucos. Nada daquelas paixões arrebatadoras que lhe roubam o
sossego por alguns dias e escapam pelo ralo do banheiro. Faltava o
companheirismo, o carinho sem pressa. E sentia, ao mirar os
olhares nas esquinas, a mesma carência... Falta amor no mundo.
Há
um segundo, estive inebriado de amor. E continuo. A sensação é
que não acaba. Até transborda. Quem vê, percebe. Todo dia há
uma nova descoberta, uma nova sensação. Antes, pouco antes,
pensei que o amor era um estágio último. Vejo que ele também
amadurece. E fica claro que o amor é sentimento dos seres
imperfeitos. A cada dia sinto-me mais completo. Os vazios vão se
preenchendo. Às vezes penso que o amor é uma loucura disfarçada
de sanidade. Só pode. Não é racional. Não tem explicação
plausível.
Hoje
ainda contemplo o mar com olhares de criança. Não canso de
admirar e tentar entender seus mistérios. A vida e a filosofia
precisam desses deslumbramentos e dúvidas. É assim também com
o amor. Então, mergulhei nesse mar de funduras abissais como
uma criança. Aquela mesma que se deslumbrou com a imensidão do
mar pela primeira vez. E desconfio, com a experiência de meus
29 anos, que passarei uma eternidade para descobrir os segredos
que revestem o mar e o amor.