Colunistas

SÉRGIO RONALDO VILAR

17/11/07

E crescem os brinquedos...

Há 25 anos deslumbrei-me com o mar. É a primeira imagem de grandeza que guardo hoje. Aquela imensidão de águas. Tinha um quê de infinito. Talvez tenha sido também minha primeira ligação com Deus. Imaginei quem poderia criar uma coisa grande daquelas. Tinha eu meus quatro anos. Era criança. Época em que tudo é novidade, surpresa, deslumbramento. E a vida era uma descoberta gostosa. Cada quarteirão, uma surpresa.

Há 20 anos, lembro bem, me foi despertada a primeira paixão. Coisa besta de menino que se apaixona sempre pela garotinha mais bonita e disputada da classe. Sonhava com ela mesmo durante as aulas. Beijos inocentes, segredos mútuos, mãos dadas;,abraços a toda hora. Alguns mais apertados. Outros, olhando nos olhos, bem fundo. O beijo também podia ser igual ao filme que assisti escondido da mãe. Por que não? Era época em que o amor tinha mais sentido que os livros.

 

Há 15 anos, aquele amor quase platônico de outrora corroia a mente. Perturbava. Era preciso estar junto. Nada de sonhar no meio da aula com um beijo quase impossível. A vontade ensejava iniciativa. E nem precisava ser direcionada àquela mais bonita da classe. O objeto de desejo agora tinha charmes mais definidos: timidez, simpatia, inteligência, um sorriso contagiante e uma pintinha preta perto da orelha. Um olhar de soslaio percebia os seios pequeninos e um belo par de pernas, juntinhas, a esconder um mistério a ser desvendado.

 

Há 10 anos, eu desconfiava saber o que era o amor. Namoros intensos. Grandes paixões. Pensava mesmo ter encontrado o elixir da vida, o sentimento que despertava a inspiração de poetas e prosadores. Uma vontade de estar junto incontrolável; de beijar, morder. Nem desconfiava, mas todo aquele furor era mais sexo do que carinho. Era tesão. A imaturidade para com as coisas do coração confundiu os sentimentos. E o único sentimento saciado era o do desejo.

 

Há 5 anos, os livros, os filmes e a carência ensinaram-me o que era o amor. Aos 24 anos, compreendi por teorias o que era este sentimento sublime. Os namoros intensos continuavam aqui e ali. Mas faltava o “algo mais”: aquele amor incondicional, construído aos poucos. Nada daquelas paixões arrebatadoras que lhe roubam o sossego por alguns dias e escapam pelo ralo do banheiro. Faltava o companheirismo, o carinho sem pressa. E sentia, ao mirar os olhares nas esquinas, a mesma carência... Falta amor no mundo.

 

Há um segundo, estive inebriado de amor. E continuo. A sensação é que não acaba. Até transborda. Quem vê, percebe. Todo dia há uma nova descoberta, uma nova sensação. Antes, pouco antes, pensei que o amor era um estágio último. Vejo que ele também amadurece. E fica claro que o amor é sentimento dos seres imperfeitos. A cada dia sinto-me mais completo. Os vazios vão se preenchendo. Às vezes penso que o amor é uma loucura disfarçada de sanidade. Só pode. Não é racional. Não tem explicação plausível.

Hoje ainda contemplo o mar com olhares de criança. Não canso de admirar e tentar entender seus mistérios. A vida e a filosofia precisam desses deslumbramentos e dúvidas. É assim também com o amor. Então, mergulhei nesse mar de funduras abissais como uma criança. Aquela mesma que se deslumbrou com a imensidão do mar pela primeira vez. E desconfio, com a experiência de meus 29 anos, que passarei uma eternidade para descobrir os segredos que revestem o mar e o amor.

 


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Notas e imagens de Jomar Morais e leitores do Planeta


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