1ª PÁGINA COLUNISTAS JM na SUPER JM na EXAME JM na VIAGEM

ISTO É NATAL

ROTEIRO

EMP./TALENTOS

REDE AMIGOS

FALE COM A GENTE

 

Ano VII // Nº 308

Texto publicado na edição de Outubro de 2001 da revista SUPER

 

E mais:

Sexo

Utopia

Vicios

Violência

Exclusivo:

Roberto Ziemer

 

Adolescência sem fim 

Meninas com seios abundantes aos 8 anos de idade, homens imaturos e dependentes aos 30... A adolescência está chegando cada vez mais cedo e acabando bem mais tarde do que deveria. O que isso significa?

Por JOMAR MORAIS

Se você acha que pelo fato de estar diante de uma reportagem sobre a adolescência - a turbulenta faixa etária entre a infância e a fase adulta - vai ter de engolir seis páginas com a ladainha de sempre sobre iniciação sexual, mau humor, ansiedade, drogas e rebeldia, está muito enganado. Não é que tais itens deixarão de ser abordados nesta matéria. Afinal, quem conseguiria escrever sobre meninos e meninas de 10 a 20 anos sem se referir às questões que fazem a alegria e o terror de pais e filhos em qualquer lugar do mundo? Quando o assunto é comportamento, esses garotos que quase nada têm a ver com a geração iconoclasta de seus pais - aquela que revolucionou os costumes nos anos 60 e 70 -, não páram de surpreender. Mas o ponto agora é que nenhuma das novas atitudes juvenis parece chamar tanto a atenção dos especialistas quanto a mudança na duração da própria adolescência, cujo início e fim começam a atropelar perigosamente a infância e a maturidade.

É sério. A puberdade, o conjunto de transformações fisiológicas que anunciam o amadurecimento dos órgãos sexuais e o início da adolescência, está chegando cada vez mais cedo para uma enorme parcela das crianças. Muitas perdem a aparência cândida da infância antes mesmo dos 8 anos de idade. Exibem precocemente traços característicos de um corpo mais velho e, como conseqüência, são submetidas a estímulos e cobranças para que assumam posturas não condizentes com o seu desenvolvimento psicológico. "Elas parecem adultos. No entanto, são apenas crianças adultizadas que não conseguem pensar e agir como gente grande", diz a psicanalista e doutora em psicologia Ruth Mattos de Cerqueria Leite, da Universidade de Campinas, a Unicamp. O que essa precipitação cronológica pode provocar no desenvolvimento físico e emocional do ser humano ninguém, por enquanto, sabe dizer com precisão. Mas a pergunta lançada por uma reportagem da revista americana Time dá uma idéia da perplexidade ante o fenômeno: a adolescência vai desaparecer? Ao perderem rapidamente os traços infantis, garotos e garotas podem ser convidados a dividir com os pais um número bem maior de responsabilidades e problemas, submetendo-se a uma sobrecarga de estresse desconhecida dos jovens nas últimas gerações.

O crescimento temporão das crianças é um fato mundial e afeta, principalmente, as meninas. (Uma conclusão que, talvez, apenas reflete a escassez de estudos sobre meninos, cujo crescimento dos testículos, o primeiro sinal externo da puberdade masculina, é mais difícil de ser notado) Na Rússia, uma em cada sete garotas apresentam seios volumosos e pelos pubianos por volta dos 8 anos de idade. Nos Estados Unidos, a proporção é ainda mais chocante: nessa idade, metade das meninas negras já exibem sinais exteriores de desenvolvimento sexual e se tornam alvo do assédio de jovens mais velhos e até adultos. No Brasil não existem estatísticas sobre o problema, mas basta zapear a televisão ou espiar uma festinha infanto-juvenil para perceber que as coisas não são diferentes por aqui. Garotinhas de olhar angelical empinando seios e bumbuns salientes, dentro de roupas sensualmente sumárias, são um sinal de que a infância também está passando apressadamente para as crianças brasileiras.

A antecipação da adolescência não é exatamente uma novidade. O que chama a atenção é o ritmo em que isso passou a ocorrer nos últimos anos. Desde o século XIX, a melhoria da alimentação tem contribuído para um amadurecimento físico mais veloz, o que resulta na chegada mais cedo da puberdade. Além disso, principalmente a partir do advento da televisão, as crianças passaram a dispor de conhecimentos e a exercitar raciocínios que no passado só aconteciam muito mais tarde, acelerando assim o seu desenvolvimento intelectual. De 1850 a 1960, a idade média em que acontece a menarca, a primeira menstruação, caiu de 17 para 13 anos. De lá para cá, essa marca desceu ainda mais: tem oscilado entre 11 e 12 anos. Os números aferidos nos Estados Unidos, a partir de uma pesquisa entre 17 000 meninas, coordenada pela pediatra Marcia Herman-Giddens, da Universidade da Carolina do Norte, impressionam em todas as direções. Para 15% das garotas americanas brancas a puberdade está começando aos 8 anos. Outros 5% apresentam sinais de incipiente maturidade sexual ainda mais cedo: aos 7, a mesma idade em que 15% das meninas negras ganham seios e pelos púbicos.

O que está por trás desse exagero? O endocrinologista e pesquisador Paul Kaplowitz, da Universidade Popular da Virgínia, nos Estados Unidos, diz que é a alimentação moderna, que privilegia alimentos industrializados ricos em hormônios e gorduras. (Alguns cientistas admitem mesmo a relação entre a alimentação e alguns distúrbios de comportamento dos jovens) "Células ricas em gordura produzem mais lecitina, proteína necessária ao desenvolvimento verificado na puberdade", diz Kaplowitz. Outra pista, encontrada pelo doutor Michael Freemark, da Universidade de Duke, é a presença de muito mais insulina no sangue de meninas com excesso de peso. Altos níveis de insulina estimulam a produção de hormônios sexuais pela glândula supra-renal e ovário, o que contribuiria para o crescimento precoce dos seios e dos pelos pubianos.

Outras conexões, menos consensuais, têm sido estabelecidas por diversos estudos. Um deles, coordenado pelo epidemiologista Walter Rogan, do Instituto Nacional de Ciências da Saúde e Ambiente, da Carolina do Norte, sugere que a sexualidade prematura das meninas pode ser causada por poluentes presentes em pesticidas, como o DDT. Sabe-se agora que, no organismo humano, tais substâncias imitam hormônios relacionados ao desenvolvimento do sistema reprodutivo. Até hipóteses que parecem extravagantes, por lhe faltarem ainda comprovação científica, devem ser levadas em conta na busca de uma explicação para o fenômeno, segundo Marcia Herman-Giddens. Por exemplo, a do médico Drew Pinsky, um dos apresentadores do programa Loveline, que a MTV americana apresentou no ano passado. Pinsky acredita que o bombardeio de mensagens sensuais sobre as crianças – inclusive através da publicidade - está contribuindo para alterações nos cérebros e corpos infantis. "A MTV é uma das causas da puberdade precoce", afirma. Exagero à parte, sua hipótese é endossada, não apenas por moralistas de plantão, mas também por cientistas como o doutor em psiquiatria e pesquisador Mauricio Knobel, fundador do Serviço de Adolescentes da Unicamp. "O estímulo psicológico e social resulta num estímulo biológico. A psicologia e a biologia não estão dissociadas", diz Maurício. Nesse sentido, até a mãe que incentiva a filha de tenra idade a imitar os gestos lânguidos de Carla Perez ou outra dançarina da televisão – quase uma obsessão em famílias pobres – pode estar disparando na menina mecanismos que só mais tarde seriam acionados pela natureza.

Qualquer que seja a causa da adolescência prematura, a verdade é que as mudanças físicas inesperadas produzem um impacto psicológico de conseqüências ainda imprevisíveis e adicionam novos riscos ao cotidiano de filhos e pais. Primeiro porque o rápido crescimento do corpo infanto-juvenil não é acompanhado pelo amadurecimento psicológico e, sequer, pelo desenvolvimento do cérebro. A cabeça de um adolescente é literalmente diferente da de um adulto, fato constatado, no ano passado, por cientistas do Instituto Nacional de Saúde Mental de Betesda, nos Estados Unidos. Conforme o estudo, a explosão do hormônio testosterona na adolescência aumenta temporariamente o tamanho da amígdala, um componente do sistema límbico, a zona do cérebro responsável relacionada aos sentimentos de ira e medo. Daí a enorme instabilidade emocional dos adolescentes, que só começa a ceder por volta dos 20 anos. Da puberdade até os primeiros anos da fase adulta também ocorre a renovação de quase todas as células dos lobos frontais, responsáveis pelas funções "executivas" de autocontrole, julgamento, organização, planejamento e ajuste emocional. É natural, portanto, que uma menina ou menino com ares de gente grande possa até apresentar comportamentos próprios de um adulto, o que não significa que estão aptos a entender todas as implicações de tais comportamentos.

A pressão ou estímulo para que crianças e adolescentes atuem como adultos pode ser a causa de transtornos como estresse, depressão e até distúrbios de comportamento. Meninas com corpo de mulher sentem-se constrangidas e são causa de constrangimento em seu grupo de amigas. Além disso, contribuem para a formação de uma barreira entre elas e os garotos de sua faixa etária, em geral bem menos encorpados. "Por volta dos nove anos, os meninos ainda vêem as garotas quase como membros de uma outra espécie", diz Glenn Elliott, psiquiatra infantil da Universidade da Califórnia em São Francisco. "Eles, realmente, não têm ainda uma noção de sexo". Muitos expressam o desconforto diante das supermeninas, ironizando seus dotes físicos. Deslocadas de seu mundo, sobram para elas, não raro, a violência do assédio sexual de jovens mais velhos e adultos.

O segundo complicador da adolescência nos dias atuais é o seu prolongamento: ela está avançando sobre a faixa etária na qual, tradicionalmente, os jovens se separam dos pais e assumem suas próprias vidas. A cada dia aumenta o número de adultos juvenis, às vezes até infantilizados, que não conseguem sobreviver sem a proteção do guarda-chuva familiar, incluindo-se aí muitos dos jovens que hoje estão casados, têm filhos e continuam a depender de seus pais em tudo. O detalhe é que, nesse caso, são os homens, que antigamente costumavam desgrudar mais cedo do ninho doméstico, as maiores vítimas da anomalia.

O problema pode ter relação com a supressão dos ritos de passagem da infância para a adolescência. Afinal, crianças encorpadas, como as meninas com seios, costumam ser estimuladas a largar mais cedo as formas de lazer infantil - uma medida que seria prejudicial ao amadurecimento psicológico. "Quando uma criança pára de brincar, algo está errado", diz Marc Bekoff, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, que há anos pesquisa os efeitos da atividade lúdica em animais e humanos. Brincar seria importante para a socialização de meninos e meninas, seu desenvolvimento cognitivo e emocional e a criatividade. A questão é que não se sabe que danos efetivos decorrem da privação da atividade lúdica infância. Por enquanto, isso é só hipótese. Mas há evidências mais fortes em outras direções.

O fenômeno do prolongamento da adolescência é recente e específico da sociedade pós-industrial. No passado, as crianças eram obrigadas a participar da luta pela sobrevivência da família, o que, aliás, explica as proles numerosas de antigamente: era preciso gerar muitos filhos para dispor de mão-de-obra para o cultivo da terra e o artesanato. Foi o excedente econômico das classes média e alta que gerou a possibilidade de meninos e meninas terem tempo para ser crianças e adolescentes. E, mais recentemente, proporcionou o surgimento da geração das roupas de grifes, da parafernália eletrônica, das mesadas generosas e da vida quase sem limites. Segundo o psicólogo transpessoal Roberto Ziemer, de São Paulo, se por um lado isso representa um aspecto positivo da evolução social, por outro trata-se de uma mudança apoiada em forças regressivas.

"A primeira delas é o desejo narcisista dos pais (e principalmente das mães) de impedir ou dificultar o crescimento emocional de seus filhos, por temerem perdê-los para o mundo", diz Roberto. "A frustração de grande parte das mulheres com o casamento faz com que elas projetem suas necessidades afetivas sobre os filhos (que se tornam seus maridos substitutos), esperando que estes nunca as abandonem". O resto da história é previsível: superprotegidos e sem um modelo forte de pai em suas vidas, tais meninos, para não frustrar a mãe e se sentirem culpados, congelam emocionalmente, comportando-se de forma imatura por muitos anos.

Com as jovens, conforme Ziemer, felizmente muitas vezes acontece o contrário: o modelo ruim de mulher que eventualmente têm em casa as impulsionam a buscar a emancipação mas, como não encontram contrapartida emocional nos rapazes, elas acabam namorando e casando com homens mais velhos. É uma enorme decepção para os garotos. Seus hormônios os impelem para o encontro afetivo e sexual com as moças, mas eles não estão prontos para ter um relacionamento. A imaturidade emocional impede o aprofundamento nas relações afetivas, gerando sucessivos desapontamentos.

Seria, obviamente, absurdo achar que qualquer pessoa com 25 anos deve ser considerada adolescente só porque mora com os pais. Numa época em que a competição no mercado exige profissionais mais bem preparados, até que um jovem conclua o seu doutorado, ou mesmo o pós-doutorado, existe a possibilidade de que continue ligado aos pais ainda por volta dos 30 anos. Mas aqui o diferencial de maturidade é dado pelo seu engajamento nas responsabilidades da casa, inclusive financeiras. "O adulto apresenta três características básicas", afirma a educadora Tania Zagury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Sabe que o mundo não gira em torno dele e tem consciência de que precisa dar sua contribuição, seja em casa ou na sociedade. Tem independência financeira. É afetivamente pleno, capaz de manter um relacionamento amoroso estável". Quem não atende a tais requisitos é por que ainda não amadureceu.

Que fique claro: a maioria dos jovens consegue atingir essa meta. Ao contrário do que parece, eles também não estão acomodados e sem ideais, como se pode constatar na leitura dos quadros das páginas XXXX e XXXX. Os jovens estão mais conservadores? Pode ser, mas é vale lembrar que a geração atual já não precisa combater por liberdades que seus pais conquistaram no passado. Na verdade, problemas como a precocidade e o prolongamento da adolescência, como, aliás, toda a temática envolvendo sexo, drogas e violência, trazem mais questionamentos aos adultos que a garotada. "Os pais estão cada vez menos preparados para assumirem o seu papel", afirma Maurício Knobel. Verdade? Talvez. Mas esta já é uma outra história.

Que achou da reportagem acima? Deseja sugerir algum tema para futura reportagem?

Tem algo a dizer ao autor? Envie agora sua mensagem para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


1ª PÁGINA COLUNISTAS JM na SUPER JM na EXAME JM na VIAGEM

ISTO É NATAL

ROTEIRO

EMP./TALENTOS

REDE AMIGOS

FALE COM A GENTE