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ESPECIAL

Janeiro/2005

 

 


Condensado de artigo publicado originalmente
no site
www.fern.org.br

 

Reflexões ante o Ano Novo

Tempo, mente e aflições

Compreender a relatividade do tempo e libertar-se dos desejos é o melhor remédio para curar a síndrome da ansiedade

Por Jomar Morais

Um dos tormentos que mais afligem as sociedades contemporâneas é a ansiedade, essa dolorosa sensação de receio e apreensão ante a vida, na maioria das vezes sem que tenhamos consciência de suas causas. A ansiedade é um embaraço à visão clara, conduz a julgamentos e atitudes precipitadas e, não raro, também nos imobiliza quando os fatos exigem ação apropriada. A ansiedade, enfim, impede-nos de fruir a vida em sua plenitude e gratuidade, privando-nos das bênçãos com que a Providência Divina nos contempla a cada instante.

O problema tem sido esmiuçado em tratados de psicologia e medicina, ensaios filosóficos e até em estudos avançados de física quântica, nos quais alguns cientistas se aventuram a teorizar sobre a Consciência e sua manifestação no universo conhecido. Sem maiores pretensões e respeitando os limites de um breve artigo na Internet, gostaria de chamar a atenção para algo estreitamente relacionado aos estados de ânsia e de angústia no dia-a-dia: a maneira como lidamos com o tempo,  com o desejo e com a percepção do relativo e do absoluto.

Ontem, hoje, amanhã

Não cabem aqui considerações científicas sobre a relatividade do tempo, tema que escapa às minhas possibilidades. É suficiente para o nosso raciocínio lembrar que o tempo se “estrutura” na mente como decorrência da atenção dada ao objeto observado, do que resulta o registro de um traço de memória. Daí o caráter relativo e ilusório das medições do tempo, ainda que necessárias à visão lógica (humana) da vida na dimensão em que existimos. Nesse nível, vivenciamos a sucessão aparente de períodos que denominamos ontem, hoje e amanhã quando, de fato, o que existe é um “hoje contínuo” no qual estão embutidos o passado, como memória, e o futuro, como possibilidade imaginativa. Em outras palavras: o real é o não-tempo, a eternidade, que permeia todos os eventos no antes, durante e depois.

Evocar no cotidiano a noção de eternidade, ou “tempo infinito”, é mais que um exercício de abstração. A consciência (e não a simples informação) de que o essencial está além do tempo e do espaço ajuda-nos a reconhecer a relevância meramente funcional do tempo medido pelo relógio, induzindo-nos a ver os fatos em nova perspectiva e a reprogramar nossas atitudes.

A ansiedade se alimenta, principalmente, da sofreguidão dos pensamentos em direção ao futuro, provocando assim uma percepção precária (ou nenhuma percepção) do momento presente, o único onde tudo acontece e onde podemos intervir, realizando opções que influenciarão o porvir a ser experienciado como um novo momento presente.

Incluir a dimensão eterna da vida na nossa rotina terrena não nos deixa incapacitados de operar com a noção de tempo relativo, própria do mundo físico. Continuaremos aptos a estabelecer objetivos e a trabalhar com afinco para alcançá-los – o que, aliás, só pode ser feito efetivamente no agora, no presente. Mas a jornada deixa de ser uma atuação obsessiva em busca do conseguir, do possuir e do controlar, o que geralmente nos conduz à inflexibilidade dos sistemas rígidos,  fomentadores das competições egoísticas e das práticas anti-éticas, tão nocivas à saúde e à paz entre os homens.

Com isso, perdemos o desconforto da ansiedade e do estresse e reconquistamos o prazer da confiança e da entrega à vida, a Deus, expressa na simplicidade da parábola de Jesus: “E o semeador saiu a semear...”

 Entre o desejo e o tédio

No desejo buscamos a satisfação dos impulsos egóicos, numa experiência impermanente do “ter”, a sucessão de eventos ilusórios que se manifestam na feição de posses materiais, desfrute de status e controle sobre coisas e pessoas. Mas tudo isso, como qualquer um pode perceber, está fora do Reino dos Céus, aquele que, nas palavras de Jesus registradas pelo evangelista Lucas, está dentro de nós e não em alguma instância exterior. Reconhecê-lo como nosso tesouro (situado onde o “ladrão na rouba nem a traça consome”) e nossa prioridade, é um antídoto natural à ansiedade que também se alimenta dos desejos que logo se transformam em tédio. Afinal,  no Reino Deus toda ação (e não o imobilismo) se submete à Sua vontade.

Obviamente, para alcançarmos esse nível precisamos, como ponto de partida, alinhar a nossa vida – palavras, atitudes e ações em qualquer circunstância – à nossa crença real. E isso, certamente, nos levará ao questionamento profundo sobre no que realmente acreditamos. Se percebemos (e não apenas professamos) o Reino dos Céus como a dimensão profunda do nosso ser e o tomamos como o propósito de nossa vida, tudo se torna compreensível, mais simples e mais fácil na caminhada espiritual, inclusive a superação do egoísmo e do desejo.

O relativo e o absoluto

O Absoluto é inefável, isto é, não pode ser dito, não cabe em palavras. O Absoluto, Deus, no entanto, pode ser experienciado, sentido no âmago do ser. E isso é uma experiência suficiente e transformadora.

No mundo de perfil ultrapragmático, dominado pelo ego e pelos desejos que lhe são inerentes – e, conseqüentemente, permeado pela ansiedade – temos uma “urgência” enorme de previsibilidade e de concretude, o que nos leva a relativizar cada vez mais o Absoluto em nossas incursões espirituais. Tentamos “concretizar” Deus e acabamos gerando ídolos e idolatria, sejam estes relacionados a estátuas de barro ou a exercícios conceituais, lógicos, todos na linha do tempo cronológico, na qual experimentamos os desejos e a ansiedade. Talvez isso explique o fenômeno do “materialismo espiritual”, que vem expulsando das tradições espirituais a filosofia e a experiência numinosa, substituídas pelas relações mercantilistas com aquilo que se acredita ser o transcendental.

No materialismo espiritual só o tempo conta. O caminho espiritual e a estrada do sucesso material se confundem. A união com Deus vira impossibilidade. Nossa miséria interior se alastra por que nos afastamos do Reino dos Céus, bastante em si mesmo. Restam o desejo e a ansiedade, o medo e as reações que lhe são próprias, como a ausência de cortesia, fraternidade e liberdade.

Mas isso tem jeito. Da mesma forma que, na ignorância e na prisão dos desejos, a mente forja a indigência nos planos visível e invisíveis da vida, quando esclarecida e disciplinada proporciona a descoberta da ventura que, segundo o Mestre, potencialmente já está  dentro de cada um. Caminhar nesse sentido é uma escolha individual.


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