Não
cabem aqui considerações científicas sobre a relatividade do
tempo, tema que escapa às minhas possibilidades. É suficiente para
o nosso raciocínio lembrar que o tempo se “estrutura” na mente
como decorrência da atenção dada ao objeto observado, do que
resulta o registro de um traço de memória. Daí o caráter
relativo e ilusório das medições do tempo, ainda que necessárias
à visão lógica (humana) da vida na dimensão em que existimos.
Nesse nível, vivenciamos a sucessão aparente de períodos que
denominamos ontem, hoje e amanhã quando, de fato, o que existe é
um “hoje contínuo” no qual estão embutidos o passado, como
memória, e o futuro, como possibilidade imaginativa. Em outras
palavras: o real é o não-tempo, a eternidade, que permeia todos os
eventos no antes, durante e depois.
Evocar
no cotidiano a noção de eternidade, ou “tempo infinito”, é
mais que um exercício de abstração. A consciência (e não a
simples informação) de que o essencial está além do tempo e do
espaço ajuda-nos a reconhecer a relevância meramente funcional do
tempo medido pelo relógio, induzindo-nos a ver os fatos em nova
perspectiva e a reprogramar nossas atitudes.
A
ansiedade se alimenta, principalmente, da sofreguidão dos
pensamentos em direção ao futuro, provocando assim uma percepção
precária (ou nenhuma percepção) do momento presente, o único
onde tudo acontece e onde podemos intervir, realizando opções que
influenciarão o porvir a ser experienciado como um novo momento
presente.
Incluir
a dimensão eterna da vida na nossa rotina terrena não nos deixa
incapacitados de operar com a noção de tempo relativo, própria do
mundo físico. Continuaremos aptos a estabelecer objetivos e a
trabalhar com afinco para alcançá-los – o que, aliás, só pode
ser feito efetivamente no agora, no presente. Mas a jornada deixa de
ser uma atuação obsessiva em busca do conseguir, do possuir e do
controlar, o que geralmente nos conduz à inflexibilidade dos
sistemas rígidos, fomentadores das competições egoísticas e das práticas
anti-éticas, tão nocivas à saúde e à paz entre os homens.
Com
isso, perdemos o desconforto da ansiedade e do estresse e
reconquistamos o prazer da confiança e da entrega à vida, a Deus,
expressa na simplicidade da parábola de Jesus: “E o semeador saiu
a semear...”
Entre
o desejo e o tédio
No
desejo buscamos a satisfação dos impulsos egóicos, numa
experiência impermanente do “ter”, a sucessão de eventos
ilusórios que se manifestam na feição de posses materiais,
desfrute de status e controle sobre coisas e pessoas. Mas tudo isso,
como qualquer um pode perceber, está fora do Reino dos Céus,
aquele que, nas palavras de Jesus registradas pelo evangelista
Lucas, está dentro de nós e não em alguma instância exterior.
Reconhecê-lo como nosso tesouro (situado onde o “ladrão na rouba
nem a traça consome”) e nossa prioridade, é um antídoto natural
à ansiedade que também se alimenta dos desejos que logo se
transformam em tédio. Afinal,
no Reino Deus toda ação (e não o imobilismo) se submete à
Sua vontade.
Obviamente,
para alcançarmos esse nível precisamos, como ponto de partida,
alinhar a nossa vida – palavras, atitudes e ações em qualquer
circunstância – à nossa crença real. E isso, certamente, nos
levará ao questionamento profundo sobre no que realmente
acreditamos. Se percebemos (e não apenas professamos) o Reino dos
Céus como a dimensão profunda do nosso ser e o tomamos como o
propósito de nossa vida, tudo se torna compreensível, mais simples
e mais fácil na caminhada espiritual, inclusive a superação do
egoísmo e do desejo.
O
relativo e o absoluto
O
Absoluto é inefável, isto é, não pode ser dito, não cabe em
palavras. O Absoluto, Deus, no entanto, pode ser experienciado,
sentido no âmago do ser. E isso é uma experiência suficiente e
transformadora.
No
mundo de perfil ultrapragmático, dominado pelo ego e pelos desejos
que lhe são inerentes – e, conseqüentemente, permeado pela
ansiedade – temos uma “urgência” enorme de previsibilidade e
de concretude, o que nos leva a relativizar cada vez mais o Absoluto
em nossas incursões espirituais. Tentamos “concretizar” Deus e
acabamos gerando ídolos e idolatria, sejam estes relacionados a
estátuas de barro ou a exercícios conceituais, lógicos, todos na
linha do tempo cronológico, na qual experimentamos os desejos e a
ansiedade. Talvez isso explique o fenômeno do “materialismo
espiritual”, que vem expulsando das tradições espirituais a
filosofia e a experiência numinosa, substituídas pelas relações
mercantilistas com aquilo
que se acredita ser o transcendental.
No
materialismo espiritual só o tempo conta. O caminho espiritual e a
estrada do sucesso material se confundem. A união com Deus vira
impossibilidade. Nossa miséria interior se alastra por que nos
afastamos do Reino dos Céus, bastante em si mesmo. Restam o desejo
e a ansiedade, o medo e as reações que lhe são próprias, como a
ausência de cortesia, fraternidade e liberdade.
Mas
isso tem jeito. Da mesma forma que, na ignorância e na prisão dos
desejos, a mente forja a indigência nos planos visível e
invisíveis da vida, quando esclarecida e disciplinada proporciona a
descoberta da ventura que, segundo o Mestre, potencialmente já
está dentro de cada
um. Caminhar nesse sentido é uma escolha individual.