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O
trauma faz parte da condição humana. Essa é a tese defendida
por Peter Levine, 64, terapeuta americano que há cerca de trinta
anos trabalha com o tema. Ao se questionar por que somente os
humanos padecem desse problema, muito embora os animais passem
diariamente por situações de perigo, Levine percebeu que nós,
ao contrário dos animais, somos em muitos casos inibidos de
completar o ciclo fisiológico natural do corpo após um evento
traumático. Segundo o terapeuta, o acúmulo de energia depois de
situações estressantes é eliminada espontaneamente pelos bichos
por meio de reações como tremores, enquanto nós podemos manter
a energia congelada por anos, dando vazão a sintomas que vão de
dores crônicas a pânico e depressão. Para ajudar as pessoas a
eliminar gradativamente esse acúmulo de energia, Levine criou a
Experiência Somática, abordagem que hoje conta com cerca de 1800
profissionais em cerca de 18 países – 200 só no Brasil. Seu
livro mais famoso, “O Despertar do Tigre” (Editora Summus),
foi traduzido para 11 línguas e explica as bases de suas teorias.
Se
você fosse fazer um relatório sobre o trauma nos últimos 30
anos, qual seria o resultado?
A
definição atual do trauma nos levou para longe da experiência
do que realmente é. Entre os indígenas, na América do Sul,
havia muito conhecimento sobre o trauma, e eles o chamavam de
“susto”, para usar o termo em português. Isso realmente
expressa o sentimento do que ele realmente é. O trauma é parte
da condição humana. Mesmo quando não existem guerras ou
desastres naturais horríveis, ainda assim nosso sistema nervoso
pode se sobrecarregar, a ponto de colapsar. Então, acho
que um relatório sobre o trauma teria de dizer que a situação
geral está pior. E quando as pessoas estão traumatizadas,
elas tendem a reagir de duas formas: ou ficam doentes e
desenvolvem sintomas ou elas atuam o trauma, geralmente por meio
da violência.
O
que é pior: o aumento de situações traumáticas ou a diminuição
da nossa capacidade de deixar o organismo lidar com elas?
A
violência não muda rapidamente, nem os desastres naturais –
eles só vão piorar. A questão é como ajudar as pessoas a não
se tornarem traumatizadas. Nós enviamos dez terapeutas, para a
Tailândia e a Índia, após a tsumani, para trabalhar com crianças
e adultos que perderam seus familiares. O impressionante é que
num período curto de tempo, às vezes menos de uma hora, essas
pessoas foram capazes de evoluir do choque e da completa impotência
para engajar-se de novo em suas vidas. Você podia ver em seus
rostos e em seus corpos que eles estavam experimentando alegria.
Uma mulher nos disse: “agora eu posso ir procurar meus filhos”,
referindo-se ao lugar onde eles mantinham os corpos das vítimas.
Atualmente, também estamos trabalhando com as vítimas do furacão
Katrina, nos Estados Unidos.
E
como foi feito esse trabalho?
Trabalhamos
com algumas pessoas individualmente, e boa parte de forma não-verbal.
Como muita coisa está no corpo, pois se tratam de respostas biológicas
e fisiológicas, quando guiamos as pessoas a ir além dessas
respostas, não usamos muita conversa. Não analisamos demais as
coisas.
Todo
trauma pode ser curado, ou há traumas com os quais é muito difícil
lidar?
Sim,
há traumas muito difíceis de lidar. A negligência e a
brutalidade durante a infância são, na verdade, os traumas mais
profundos. Podemos ajudar essas pessoas, e de forma excelente,
algumas vezes. Mas acho que, para elas, é uma grande luta, muito
embora elas possam ser curadas. Temos trabalhado, inclusive, com
psicóticos. Mas isso exige habilidades especiais e tempo –
talvez um a três anos de terapia.
Sua
terapia é muito diferente da terapia analítica e da terapia catártica.
Por que isso? Esses outros tipos de terapia podem contribuir para
agravar o trauma?
Comumente,
quando há muito trabalho catártico, a pessoa pode retraumatizar,
porque ela revive o que aconteceu, e o sistema nervoso não
consegue diferenciar quando é real e quando você está
revivendo. E quanto a falar... Veja, a parte do cérebro que é
afetada pelo trauma é a parte primitiva – o cérebro límbico e
instintivo. Então, as palavras não possuem nenhum efeito aí –
mas a consciência sim. Você pode usar as palavras para ajudar as
pessoas a ficarem conscientes. Na verdade, nós encorajamos as
pessoas que já fazem outras terapias a incorporarem o que nós
ensinamos.
Você
tem alguma dica para que as pessoas previnam o trauma?
Em
muitos casos, depois que coisas assustadoras acontecem com as
pessoas, elas vão chacoalhar e tremer e têm sentimentos
variados. E isso é parte do processo de cura. Nesse caso, a
pessoa que está com elas deve dizer: “está tudo bem, deixe
isso acontecer”, ou até mesmo embalá-las – talvez não
fisicamente, como você embala um bebê, mas embalá-las com a sua
presença.
Quer
falar com o autor? >>> gustavoprudente@superig.com.br
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