Há
204 anos, o inglês Edward Jenner descobriu a primeira
vacina. Conseguiu, para surpresa geral, imunizar um garoto
de 8 anos contra varíola inoculando-lhe
soro de varíola bovina. Dois séculos depois, a pergunta
que dá título a esta matéria caiu como uma bomba sobre a
mais difundida das ferramentas de saúde
pública: a vacinação que se propõe imunizar o corpo
humano contra doenças infecciosas já a partir dos
primeiros dias de vida. Não é de hoje que há debates
acalorados sobre vacinas no meio científico. Mas a questão
ressurgiu com mais força há três anos, nos Estados Unidos
e na Europa. Desde então, a dúvida vem se espalhando entre
pais e profissionais da área médica ao redor do mundo. A
crítica às vacinas apóia-se em pelo menos três pontos
polêmicos.
Nos últimos tempos parece ter aumentado – ou pelo
menos se tornado mais visível – a ocorrência de efeitos
adversos de certas vacinas, como a tríplice contra difteria,
coqueluche e tétano. Os efeitos variam da simples
irritabilidade ao desenvolvimento da doença que se
pretendia evitar. Há registro de casos extremos em que a
vacinação resultou em morte.
Enquanto as chamadas doenças da infância, como o
sarampo e a rubéola, declinam, aparentemente como
conseqüência das campanhas de vacinação, observa-se um
súbito aumento de males crônicos como o diabetes, a
artrite, a asma e outros tipos de alergias. Para os
antivacinistas, estudos recentes, realizados em vários
países, não deixam dúvidas sobre a relação causal entre
a sobrecarga de vacinas recebida pelas crianças e as
doenças autoimunes – males provocados por respostas
anormais do sistema imunológico contra o próprio organismo.
Apesar do salto tecnológico que sinaliza a utilização,
em futuro próximo, de sofisticadas vacinas de DNA, que se
diferenciam das outras por ter ação mais forte e
prolongada (em ratos, atuam por toda a vida), os cientistas
passaram a admitir recentemente que pouco sabem sobre a
ação das vacinas no corpo humano. O diretor do Instituto
Pasteur de Paris, Philippe Kourilsky, guardião das teorias
do químico francês Louis Pasteur, pai da microbiologia,
reconhece essa relativa ignorância da medicina. Em maio do
ano passado, ao confessar seu espanto com a escassez de
informações científicas básicas nesse campo, ele afirmou:
"Cada vez que uma vacina se mostra eficaz, os
cientistas simplesmente a entregam para o pessoal da saúde
pública e vão estudar outra coisa".
Num país onde a quase totalidade das doenças
infecciosas foi controlada, como é o caso dos Estados
Unidos, o questionamento das vacinas começa a ser traduzido
em números que expressam a repercussão social do problema.
Um quarto das famílias americanas, segundo pesquisa do
Centro Nacional de Informações sobre Vacinas, uma
organização não-governamental baseada em Vienna, no
Estado da Virgínia, já se pergunta se o sistema de defesa
das crianças não fica enfraquecido por conta de tantas
vacinações. Afinal, são quase dez doses apenas nos
primeiros seis meses de vida e 22 tipos de vacinas aplicadas
antes da idade escolar. Outros 19% dos americanos põem em
dúvida a própria eficácia das vacinas na prevenção de
doenças.
O governo dos Estados Unidos, que, desde 1986, é
legalmente obrigado a indenizar possíveis vítimas das
imunizações, também está atento. Seu site de Relatos
sobre Efeitos Adversos das Vacinas recebeu 108 000 queixas
entre janeiro e outubro do ano passado, todas encaminhadas
para averiguação técnica. A maioria dos relatos diz
respeito a desconfortos leves, como febres e indisposição
passageiras, que os cientistas costumam desconsiderar. Mesmo
assim, as referências a complicações colaterais graves
– inclusive mortes – em 14% das denúncias levou o
Serviço de Saúde dos Estados Unidos a redobrar a
vigilância sobre os fabricantes de vacinas e a interferir
nas normas de produção.
Foi proibida, por exemplo, a utilização do conservante
timerosal, substância à base de mercúrio, usado na
maioria das vacinas que, segundo os antivacinistas, é
responsável por vários dos efeitos adversos em vacinados.
(No Brasil, a maioria dos fabricantes vêm eliminando,
gradualmente, o timerosal das fórmulas das vacinas.) Por
solicitação da Academia Americana de Pediatria, foi
suspenso o uso da vacina Sabin, fabricada com vírus vivos
da poliomielite, que, segundo dados oficiais, vinha
apresentando a média anual de oito casos de contágio
vacinal. Isto é, a cada ano cerca de oito crianças
contraíam paralisia provocada justamente pelo vírus
atenuado da pólio usado na Sabin. Agora os americanos
utilizam apenas a vacina Salk, anterior à Sabin e preparada
com vírus mortos, tida como menos eficaz pelos cientistas.
(A vacina Sabin era utilizada nos Estados Unidos desde 1962.
No Brasil, onde foi adotada na década de 60, ela ainda é
empregada.)
Outros países também apertaram o cerco às vacinas nos
últimos anos, baixando medidas preventivas. A Suécia
substituiu a vacina tríplice DPT contra difteria,
coqueluche e tétano (outra que continua sendo utilizada no
Brasil), por uma variedade que exclui o componente pertussis
(coqueluche em inglês), o P da sigla. É que esse
componente costuma ser associado à maioria dos casos fatais
e das lesões permanentes em crianças atribuídos às
vacinas.
No Japão, as autoridades de saúde entraram em alerta
depois que pesquisadores do Instituto Nacional de Doenças
Infecciosas daquele país encontraram em rios e esgotos, no
ano passado, exemplares de vírus selvagens da pólio cujo
exame genético comprovou serem mutantes de vírus atenuados
usados na vacina Sabin. Segundo o virologista Hiromu
Yoshida, chefe da equipe de pesquisadores que investiga o
caso, o achado não representa uma ameaça à saúde
pública dos japoneses, mas confirma uma suspeita antiga: a
de que o vírus atenuado da pólio sofre mutação no
organismo do vacinado, recobrando a virulência original.
Esse é, a propósito, um dos cavalos de batalha dos
antivacinistas.
O que dá para depreender disso? Pelo menos uma coisa: em
se tratando de vacinas, um dos pilares dos programas de
saúde pública em quase todos os países, será necessário
mais tempo até que todas as dúvidas sejam esclarecidas e
as opiniões hoje antagônicas e exaltadas convirjam para um
novo entendimento. Não há resposta fácil. Mas o ponto é
que há dúvidas e desconfiança onde antes parecia só
haver certezas e tranqüilidade. E o debate está apenas
começando. Inclusive no Brasil, país onde, nos últimos 14
meses, três mortes foram associadas ao uso de vacinas).
As ressalvas às imunizações são tema tabu na maioria
dos círculos médicos. De um lado, não são raros os casos
de pediatras que, de forma quase clandestina, aconselham
pais a moderar a vacinação dos filhos ou a simplesmente
evitá-la. De outro, as divergências com o pensamento
médico hegemônico que manda vacinar a qualquer custo
acontece sempre de forma discreta e subterrânea. O receio
dos profissionais tem um pilar na rejeição que podem
sofrer entre os seus pares, seja no ambiente médico seja no
meio acadêmico. E outro na possibilidade de que criticar
abertamente as vacinas possa, de alguma forma, conduzir a um
problema maior de saúde pública. Em outubro passado,
finalmente, a discussão veio à tona com um artigo do
biogenista Fernando Travi, publicado na seção "Superpolêmica",
da Super. O artigo foi um dos mais comentados do ano pelos
leitores, vários deles profissionais da área de saúde e
pacientes com casos pessoais a relatar sobre o uso de
vacinas.
"As vacinas são a mais eficiente intervenção
médica que a humanidade já produziu", afirma
Aguinaldo Roberto Pinto, doutor em microbiologia e
pesquisador do Instituto Adolpho Lutz, de São Paulo. "Desconhecer
os seus benefícios é uma estupidez sem limites", diz
Cláudio Pannuti, especialista do Instituto de Medicina
Tropical da Universidade de São Paulo. Aguinaldo e Cláudio
admitem que não existem vacinas 100% seguras. Mas acham que
usar os efeitos adversos dos preventivos para clamar contra
as campanhas de vacinação fere o bom senso. Primeiro,
argumenta Cláudio, porque tais efeitos seriam tão raros
que se tornariam insignificantes diante do benefício
proporcionado pelas vacinas. Isso equivaleria a dizer que as
três mortes associadas às vacinas no Brasil, não
justificariam acabar com a vacinação que evita epidemias
que, no passado, dizimavam milhões de pessoas.
O segundo argumento pró-vacina é que o suposto aumento
dos danos decorrentes da vacinação não passaria de uma
falsa dedução. O que estaria acontecendo é que, com o fim
ou o controle de muitas moléstias infecciosas, os casos de
contágio vacinal, lesões e outros efeitos colaterais das
vacinas – antes diluídos entre multidões de doentes –
ganharam naturalmente maior visibilidade, transformando-se
num problema de primeira grandeza em sociedades liberadas de
ameaças maiores. "Suspender as campanhas de
imunização traria muitos prejuízos à população, com o
retorno das epidemias do passado", diz Cláudio.
Nos últimos três anos dezenas de livros foram escritos
sobre o lado escuro das vacinas – nenhum em português. E
muitos fóruns, realizados principalmente nos países
desenvolvidos, ecoaram os argumentos antivacinistas. Em
quase todos os casos, os círculos oficiais da ciência, os
governos e os técnicos em saúde pública optaram por
desconhecer a polêmica, no pressuposto de que o atual
modelo de imunização é inquestionável. Que fique claro:
nem todos os que fazem restrições às vacinas querem
abolir o seu uso. "É possível utilizá-las de modo
mais criterioso até que se encontre um jeito melhor de
prevenir doenças", afirma o médico Romeu Carrillo
Júnior, presidente da Associação Brasileira de Reciclagem
e Assistência em Homeopatia. O ponto consensual é o de que
está na hora de os centros tradicionais de pesquisa se
disporem a investigar os problemas relacionados às vacinas
e reavaliar as práticas atuais nessa área. E é aí que se
encontra um dos nós mais intrincados da discussão.
Desde a experiência pioneira de Edward Jenner, inspirada
numa crença popular do interior da Inglaterra, as vacinas
são poções destinadas a estimular o sistema de defesa do
homem a desenvolver anticorpos contra determinados vírus ou
bactérias, tornando o organismo imune às doenças causadas
por esses agentes. Para tanto, utiliza-se o próprio
micróbio causador da doença, morto ou atenuado em sua
virulência, em composições que foram sendo aperfeiçoadas
ao longo dos anos. "Vacinar é adoecer, só que
brandamente, sob controle", afirma Cláudio. A questão
é que, como admite o pesquisador do Instituto Adolpho Lutz,
muitas vacinas apresentam uma zona de penumbra em que os
cientistas não conseguem penetrar: o processo como atuam no
interior do corpo.
Nascem dessa lacuna as razões para declarações
inusitadas, como a de Philippe Kourilsky, do Instituto
Pasteur, que reconheceu que as vacinas são mal-estudadas. E
para o quadro patético descrito por Neal Nathason, diretor
do Centro para Pesquisa da Aids, do governo americano, em
nota recentemente publicada pela revista inglesa New
Scientist. Segundo Neal, vacinas como as da hepatite B,
poliomielite, sarampo e mesmo a veterana varíola são
aplicadas em escala mundial sem que os cientistas conheçam
até hoje seus mecanismos de ação. Aguinaldo acrescenta à
lista a vacina anticoqueluche, um dos alvos preferidos dos
antivacinistas pelo número expressivo de efeitos colaterais
que apresenta.
Ruth Ruprecht, médica e pesquisadora da Escola de
Medicina da Universidade Harvard, nos Estados Unidos,
oferece uma explicação de por que isso ainda acontece:
"É difícil obter recursos para pesquisar vacinas que
já existem". Os habituais financiadores de estudos
científicos, entre os quais a grande indústria
farmacêutica, costumam alegar que não há razão para
investigar o que já foi descoberto, preferindo apostar em
estudos que levem a novos produtos. "Isso é só
meia-verdade", afirma Marcos Oliveira, diretor do
Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos,
do Rio de Janeiro, de onde sai a maioria das vacinas em uso
no Brasil. "Há esforços para otimizar vacinas
existentes, como é o caso da vacina contra meningite, cuja
fórmula não funcionava em crianças abaixo de dois anos, e
dos estudos atuais para dar mais eficácia à BCG, diante do
aumento da resistência do bacilo da tuberculose", diz
Marcos. Esse aparente descaso acirra a crítica de
adversários radicais das imunizações, para os quais
vacinas são fórmulas destituídas de fundamento
científico. Ao mesmo tempo limita a argumentação
antivacinista pela escassez de testes laboratoriais que
comprovem as alegadas relações causais entre o uso de
vacinas e algumas doenças.
Em depoimento na Subcomissão de Trabalho e Saúde do
Congresso americano, em 1997, o médico Harris Coulter,
presidente do Centro de Medicina Empírica, de Washington,
apresentou um rol de casos sugestivos de que, entre outros
males, as vacinas estão por trás do aumento exorbitante
dos casos de diabetes nos Estados Unidos nas últimas
décadas. Desde 1950, o número de diabéticos naquele país
cresceu mais de 1 000% – há 13 milhões de americanos
diabéticos atualmente –, um incremento dez vezes maior do
que o aumento da população. Coincidência ou não, a curva
ascendente da doença avançou junto com a descoberta de
novas vacinas e o avanço das campanhas de imunização.
Coulter, co-autor com Barbara Fisher de um livro
clássico do moderno pensamento antivacinista, DPT: A Shot
In the Dark (DPT: Um tiro no escuro), ainda inédito no
Brasil, apontou suas baterias para três componentes de
vacinas múltiplas – coqueluche, rubéola e cachumba – e
para as vacinas contra hepatite B e gripe (Haemophilus
influenza). "Desde a década de 70 a vacina contra
coqueluche tem sido usada em experimentos com animais para
estimular a superprodução de insulina pelo pâncreas",
diz Coulter. "Mas o seguimento desse processo é a
exaustão e a destruição das ilhotas de Langerhans (que
geram a insulina), fato que resulta num quadro de
hipoglicemia e, depois, diabetes." Como a produção de
insulina no homem se dá de maneira semelhante à dos
animais, o médico acredita ter encontrado aí a
explicação para as estatísticas que sinalizam o aumento
dos casos de diabetes após as campanhas de vacinação com
a DPT nos Estados Unidos e em outros países. Não há
estudos que rebatam de modo conclusivo a tese de Coulter e
Fischer.
No caso da vacina anti-rubeóla, ainda segundo Coulter, o
efeito do vírus atenuado no organismo seria tão nocivo e
persistente quanto nos casos de rubéola congênita,
contraída por bebês cujas mães tiveram a doença durante
a gravidez. No organismo de quem tem a doença congênita
forma-se um "complexo imune", constituído do
vírus e do anticorpo correspondente, que pode perdurar por
até 20 anos. Pelo menos 20% desses indivíduos acabam
desenvolvendo diabetes Tipo I, o diabetes melitus.
Considerando que entre os vacinados contra rubeóla foi
constatada a existência do mesmo complexo imune até sete
anos após a imunização, Coulter deduz que se tem aí um
claro fator desencadeador do diabetes. Pessoas que nunca
tiveram rubéola ou contraíram a doença naturalmente não
exibem o complexo imune.
A lista de doenças graves associadas à imunização
pelos antivacinistas é longa. Inclui moléstias como o
autismo, esclerose cerebral, distúrbios de comportamento e
alergias como a asma, doença que mata 5 000 pessoas por ano
só nos Estados Unidos.
Nessa relação ocupa lugar de destaque o chamado
"Mal do Golfo", a síndrome manifestada por
militares americanos que lutaram na Guerra do Golfo, há dez
anos. Algum tempo após o fim da guerra, cerca de 300 000
dos 700 000 soldados enviados ao campo de batalha passaram a
apresentar manifestações que vão de enxaquecas a fadiga
crônica, diabetes, distúrbios cerebrais e até câncer.
Para os antivacinistas, o problema foi causado pela carga de
17 vacinas que os militares tomaram antes de seguir para a
guerra, entre elas a vacina anthrax, contra a bactéria
utilizada em armas biológicas dos iraquianos.
As incertezas são muitas. Um dos estudos mais
abrangentes foi realizado no início dos anos 90 por uma
comissão interdisciplinar do Instituto de Medicina
americano (IOM) e, por determinação do Congresso dos
Estados Unidos, envolveu apenas queixas contra a vacina
anticoqueluche. O grupo investigou 18 tipos de efeitos
adversos associados à vacina, entre os quais agitação e
espasmos infantis, encefalite, meningite, autismo, morte
súbita de bebês, anafilaxia (choque alérgico que pode ser
fatal) e diabetes. Após 20 meses avaliando estudos de casos,
estatísticas epidemiológicas, experiências com animais e
estudos laboratoriais, a comissão descartou toda e qualquer
relação causal entre a vacina e o autismo, reconheceu
evidências de que ela pode provocar agitação, encefalite
e choque anafilático e deixou sem resposta o resto das
perguntas alegando insuficiência de dados.
Outro estudo recente do IOM descartou a associação
entre a síndrome do Golfo e a vacina anthrax. Mas não
conseguiu encerrar o assunto. O epidemiologista Robert
Haley, do Centro Médico da Universidade do Sudoeste do
Texas, em Dallas, Estados Unidos, adverte que é preciso
levar em conta outros fatores, como a exposição dos
militares a armas químicas e a munição fabricada com
urânio empobrecido.
Também recentemente outra tese polêmica, defendida pelo
jornalista Edward Hooper em seu livro The River: A
Journey To The Source of HIV and Aids (O Rio: Uma
jornada à origem do HIV e da Aids), ainda inédito no
Brasil, foi contestada por cientistas reunidos pela
Sociedade Real de Londres. Segundo Hooper, o HIV surgiu da
mutação do vírus da pólio usado em vacinações no
Congo, entre 1957 e 1960. A alteração teria acontecido
durante o processo de atenuação da virulência do vírus
através de sucessivas reproduções em chimpanzés (a
técnica moderna de atenuação não envolve mais animais:
consiste em submeter culturas do micróbio a alta pressão e
calor). Do macaco o novo vírus mutante teria saltado para a
espécie humana. Os cientistas alegam que a seqüência
genética do vírus da imunodeficência em chimpanzés não
confirma a tese de Hooper.
Outra face do debate expõe a questão da eficácia das
vacinas na prevenção das doenças que se propõem a
combater. Segundo os antivacinistas, a ineficiência é
comprovada pelas estatísticas epidemiológicas. "É
certo que a varíola desapareceu do mundo e a pólio foi
virtualmente eliminada do Ocidente pela vacinação. Mas é
exagero supor que as vacinas são responsáveis pelo
controle de todas as epidemias do passado", diz Harold
Buttram, membro da Academia Americana de Medicina Ambiental,
sediada em Wichita, no Kansas, Estados Unidos.
Os antivacinistas afirmam que as vacinas começaram a ser
usadas quando as principais doenças infecciosas já estavam
em declínio, vencidas pelas defesas naturais do organismo.
Ou seja: a erradicação das doenças seria resultado de
fatores como a redução da pobreza, a melhoria da
alimentação e das condições de higiene e de saneamento a
partir da segunda metade do século XIX. Não seria
conseqüência direta da vacinação. Nos Estados Unidos,
afirma Harold, o índice de mortes provocadas pelo sarampo
declinou 95% entre 1915 e 1958. A vacina contra a doença
só foi criada em 1964. O mesmo se deu com a coqueluche na
Inglaterra, cuja incidência diminuiu 82% de 1900 a 1935.
Antes do início da imunização em massa naquele país, que
só foi acontecer na década de 40.
A polêmica sobre as vacinas deriva de um conflito
conceitual na área médica que marcou o século XIX e agora
ressurge, impulsionado por novas descobertas e pelo avanço
da medicina holística. São célebres os debates travados
entre Louis Pasteur e Claude Bernard naquela época.
Pasteur, pioneiro no estudo dos microorganismos, formulou a
teoria segundo a qual cada doença possui uma causa única,
um vírus ou bactéria que invade o organismo e ali produz
um tipo específico de devastação. Para Bernard, a causa
estava em elementos ambientais, externos e internos, e a
doença não passava de uma perda de equilíbrio do
organismo provocada por muitos fatores. Vem daí a noção
do corpo como um "terreno" onde os microorganismos
podem ou não agir de forma nociva, dependendo das
condições que encontram ali. O que chamamos de doença
seria mero sintoma de um mal subjacente e sistêmico, um
sinal do esforço do próprio organismo para reequilibrar-se.
Pasteur ganhou a parada. Além de cientista notável, o
químico francês era também um polemista habilidoso que
soube aproveitar a eclosão de várias epidemias, na época,
para demonstrar a lógica de seu conceito de causação
específica. A partir daí, todo um modelo biomédico
centrado na microbiologia e, mais recentemente, na biologia
molecular, deu base aos procedimentos médicos modernos –
inclusive às vacinações em massa. No livro O Ponto de
Mutação, no qual discute, entre outros temas, o atual
modelo médico, o físico americano Fritjof Capra afirma que,
mais tarde, Pasteur reconheceu a importância do "terreno"
para as enfermidades, tendo ressaltado a influência dos
fatores ambientais e dos estados mentais na resistência às
infecções. O químico, porém, segundo Capra, não teve
tempo para empreender novas pesquisas e seus seguidores
persistiram na trilha original.
Os holísticos e os antivacinistas respondem em uníssono
quando a pergunta é o que fazer para evitar doenças sem
vacinas: cuidar bem do "terreno". Ou seja, manter
as condições que garantiriam o bom funcionamento do
sistema de defesa do organismo. Além de alimentação
adequada, compõe a receita a exigência de praticar
exercícios, dormir bem e evitar hábitos agressivos à
saúde (álcool, fumo, drogas), a poluição ambiental e as
situações estressantes. Não é fácil, mas vem crescendo
o número de pessoas interessadas num caminho que evoca uma
melhor qualidade de vida. A dúvida é se isso basta. "Gostaria
de saber se um desses críticos das vacinações se
recusaria a tomar a vacina anti-rábica se fosse mordido por
um cão raivoso", diz Cláudio.
Quem vencerá o debate do século XXI – Pasteur ou
Bernard? Numa época agraciada com recursos de tecnologia
impensáveis há 120 anos pode-se imaginar que ficou mais
fácil dirimir velhas incertezas. Ao que tudo indica, no
entanto, isso não acontecerá logo. A complexidade e os
muitos interesses que envolvem a questão prometem gerar
mais perguntas e farpas antes que se chegue a algum consenso.
PARA SABER MAIS:
Na livraria:
Childhood Immunization
-Jamie Murphy, Earth Healing Products, Estados Unidos, 1998
Vaccination – L’Overdose - Sylvie Simon, Déjà,
França, 1999
DPT: A Shot In The Dark - Harris Coulter e
Barbara Fisher Avery, Estados Unidos, 1985
Na Internet:
www.woodmed.com
www.ctanet.fr/vaccination-information
www.taps.org.br