A
idéia
de “viver no presente” está ganhando popularidade no Brasil,
com a expansão dos centros de práticas meditativas, a explosão
de livros de auto-ajuda e obras filosóficas que resgatam
ensinamentos das tradições espirituais do Oriente.
Há
milênios sábios de diversas linhagens ensinam que para alcançar
a realização total é preciso aquietar a mente, trazendo-a para
o agora. Somente com a superação do tumulto dos pensamentos
oscilantes entre passado e futuro, a matéria-prima da ansiedade e
da distração, o homem consegue a visão clara sobre si mesmo e o
mundo. E essa hipótese vem sendo testada - e aprovada - no
Ocidente por pesquisadores e especialistas de diversas áreas,
entre eles os psicólogos. O terapeuta e consultor paulistano
Roberto Ziemer, por exemplo, descobriu o potencial curador dessas
teorias desde que começou a se interessar por abordagens
contemplativas como o budismo, há mais de 15 anos. Hoje, utiliza
a técnica em seu consultório e nas empresas onde presta
consultoria. Sua experiência sinaliza que acessar chamado “estado
de presença” ajuda as pessoas não apenas a se sentirem bem,
mas também a descobrir quem verdadeiramente são.
Na
entrevista a seguir, Ziemer fala sobre o estado de presença
e as maneiras de alcançá-lo:
O
que é estar presente?
Basicamente,
é trazer a atenção da mente para aquilo que está acontecendo
agora, tanto dentro quanto fora de você. Significa não julgar e
aceitar incondicionalmente as situações internas e externas. O
caráter revolucionário dessa experiência é que se você ficar
no aqui e agora, esse agora muda. Porque sua percepção sobre ele
muda. Não colocando resistência, você começa a perceber as
possibilidades que o momento presente lhe mostra e começa a
construir um futuro realmente positivo.
Ficar
totalmente concentrado num programa de televisão ou na tela de um
computador é estar presente?
Não.
Nesse caso a pessoa está sendo absorvida por uma informação ou
uma experiência externa e perde contato com o que está sentindo
– ela está sendo absolutamente dominada pelas associações da
mente. Um dos fenômenos interessantes é que quando isso acontece
perdemos imediatamente o contato com o corpo e com a respiração.
E quanto menos respiramos e temos contato com nosso corpo, mais
pensamos, porque há menos oxigênio chegando ao cérebro. Existe
uma relação direta entre inconsciência corporal, respiração
superficial e uma mente muito agitada. Tanto é verdade que a base
do ioga e da meditação é nos conscientizar do corpo e da respiração para permitir que a atenção
venha para o presente.
Por que é tão
difícil para as pessoas aceitar incondicionalmente o presente?
Porque
elas criam expectativas e fantasias, e o momento presente é
sempre novo, inesperado, e não se coaduna com essas fantasias.
Elas querem fazer com que a situação externa se adapte às suas
expectativas, ao invés de fazer o contrário: aceitar a
situação externa como a verdade, a realidade. A maioria das
pessoas não vive assim. Elas planejam o dia de amanhã, e quando
o amanhã chega e não acontece da maneira como elas
esperavam, começam
a ficar irritadas e nervosas. E aí brigam com as pessoas e
situações, porque não estão se alinhando com suas
expectativas.
Mas
como o cidadão que tem de pagar as contas e buscar o filho na
escola pode ter uma rotina e montar um plano de ação sem ter
expectativas?
Disciplina
é fundamental, mas ela não significa que você precisa planejar
tudo o que vai acontecer. Você prevê sua atividade, aquilo que
é importante ser feito. Mas como isso vai acontecer, você não
sabe em detalhes. Por exemplo, buscar o filho na escola é uma
atividade. Mas você não sabe se vai encontrar trânsito no
caminho, se seu filho vai recebê-lo bem, se você vai estar feliz
ou triste quando o buscar. São variáveis que você não
controla. A maioria de nós tem a expectativa ingênua de que tudo
vai ser perfeito, como planejado. Só esquecemos que não
controlamos a realidade, pois somos uma pequena parte dela. Se
você levar isso em conta, vai perceber que só tem controle sobre
si mesmo – suas percepções, sentimentos e pensamentos. Podemos
até influenciar as situações externas, mas jamais
controlá-las. E mesmo o autocontrole só é possível se
estivermos no presente. Do contrário, não percebemos como
estamos funcionando. E quanto menos a pessoa se controla, mais
quer controlar os outros. A idéia é: “se eu controlar os
outros, não vou precisar me controlar ou a meus próprios
sentimentos”, o que obviamente não funciona.
Por
que é tão difícil nos livrarmos das expectativas?
No
Ocidente não aprendemos a questionar como a mente funciona, a
não ser em seu aspecto racional. Dessa forma, não percebemos que
nossa mente é constituída basicamente de hábitos e
condicionamentos. Mais de 95% do que pensamos durante o dia é
igual ao que pensamos ontem, antes de ontem e assim por diante.
Mas a questão central é: quem está pensando de forma tão
repetitiva? Trazendo sempre as mesmas questões? Fazendo sempre as
mesmas perguntas? E reagindo sempre da mesma forma? É a mente
condicionada – pela família, pela sociedade, pela educação.
Não a mente mais vasta, explorada com profundidade pelas
tradições espirituais tanto do Ocidente quanto do Oriente. Por
não termos compreensão do funcionamento pleno da mente, somos
dominados por ela. E pagamos um preço muito alto por isso, pois
boa parte do que a mente pensa e faz é limitante, destrutivo e
repetitivo. E sem conhecê-la, a pessoa acaba acreditando ser a
mente. Nesse ponto, ela também acredita ser seus pensamentos, e
as crenças que embasam esses pensamentos se tornam verdades. Como
você vai questionar uma verdade? Finalmente, a pessoa projeta sua
mente sobre o mundo externo, achando que é ele que na verdade a
está oprimindo.
Mas
a mente ocidental, por ser tão racional, não é justamente
questionadora? O que você quer dizer com “verdades”?
Tenho
uma cliente que tem uma relação muito difícil com uma enteada.
Durante um exercício, perguntei como ela via essa enteada. Ela
respondeu: “como uma barata”. Perguntei: “o que você sente
por essa barata?”. Ela foi associando: “nojo, vontade de ficar
longe” etc. E ela reage diante dessa enteada como se realmente
fosse uma barata, porque a mente dela, por meio das associações
com o passado, relaciona essa pessoa a uma barata. Como ela não
tinha conhecimento sobre este aspecto de si mesmo, não conseguia
perceber que a barata e a enteada são duas coisas
diferentes. Quando ela encontrava
ou ouvia falar da enteada, no subconsciente ocorria
a equação: “enteada igual a barata”, o que significa
ter nojo e não querer nenhum contato. E é isso que acontece em
seu comportamento. Nesse caso, se ela pudesse trazer o foco de sua
atenção para o presente, a associação de que a enteada é
igual a uma barata não poderia acontecer, porque ou você está
consciente da realidade ou você está sendo dominado pelas
associações com o passado. Não há espaço para as duas coisas.
A atenção é nosso recurso mais escasso. A cada instante você
só pode dar atenção a uma coisa, embora a mente fique pulando
de assunto a assunto, como um macaco pula de um galho a outro numa
árvore. Quando você está totalmente no presente, as associações
com as situações do passado desaparecem. E aí você se torna
livre Você não julga ou cria conceitos sobre o outro. O outro é
o outro. A grande dificuldade de nossos relacionamentos está
justamente em não conseguir ver o outro sem os preconceitos de
nosso passado.
Quais
são os indicadores para percebermos que não estamos presentes?
O
principal é o quão consciente você está do seu corpo,
sentimentos e respiração. Se eu perguntar o que está sentindo
agora e você não souber na hora, é porque não estava no agora.
Se questionar como está sua respiração e sua reação for dar
repentinamente uma inspirada profunda, é outro sinal de
desconexão. Sua respiração estava presa, porque você estava
dentro de um enredo, geralmente não muito agradável, que sua
mente estava contando para você. Isso gera opressão. A maioria
das pessoas vive ou oprimida pelo passado ou ansiosa pelo que pode
acontecer no futuro. Muitos de nós estamos viciados em pensar
compulsivamente, preocupados com o futuro, com medo do
desconhecido e de sermos pegos desprevenidos pelo momento
presente.
E
quais são os indicadores para saber que se está no presente?
Sentir
o quanto você está em paz.
Existem
experiências espontâneas de presença?
Sim.
Por exemplo, durante as férias você vê um lindo pôr do sol e
de repente todas as preocupações desaparecem. Você se torna
aquele pôr do sol e durante alguns segundos, tem uma experiência
de eternidade, porque o agora leva você para a sensação de que
não existe mais o tempo do relógio. Para a maioria das pessoas,
isso acontece como lampejos, mas elas logo perdem esse estado de
presença, não o exploram e nem tentam expandi-lo. E há as
pessoas que nunca têm isso, porque possuem um grande medo. Elas
preferem o mundo da negatividade e da conformidade ao conhecido do
que viver uma experiência nova que não sabem aonde vai terminar.
Há
situações que favorecem essas experiências?
Sim.
Contato com a natureza. Questionar quem você é. Começar a
aceitar o fato de que talvez você não seja sua mente. Praticar
técnicas de concentração e meditação, no início com a
orientação de alguém que já domine essas práticas.
Transformar alguns momentos de seu dia numa arte contemplativa. Se
for pintar, por exemplo, não apenas pinte com o objetivo definido
de terminar um quadro. Esteja totalmente concentrado no que está
fazendo. Isso vale para tudo: se está escovando os dentes, apenas
escove. Não planeje o que vai fazer depois. Ao comer, perceba
como você deglute e o alimento que escolheu para ingerir. Não
faça comentários mentais ou crie outras experiências ao mesmo
tempo. Trazer a atenção para o presente abre a possibilidade
para que você perceba que pode aproveitar muito mais a vida
estando aqui e agora. Você reconhece o nível de amizade que
estabelece com você mesmo observando o quão à vontade se sente
ficando sozinho, em silêncio, sem fazer nada. O passado já foi e
o futuro você não sabe como vai ser. Quem você é está aqui e
agora. É a única coisa que você sabe.
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Gustavo
Prudente é jornalista. Contato:
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