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Agosto/2005

 

O desafio de
viver no agora

O terapeuta Roberto Ziemer fala sobre os benefícios de viver
focado no presente e diz como evitar as distrações que conduzem as pessoas à ansiedade e às atitudes intempestivas

Por Gustavo Prudente (*) 

A atenção do bebê: símbolo do "estado de presença"

A idéia de “viver no presente” está ganhando popularidade no Brasil, com a expansão dos centros de práticas meditativas, a explosão de livros de auto-ajuda e obras filosóficas que resgatam ensinamentos das tradições espirituais do Oriente.

Há milênios sábios de diversas linhagens ensinam que para alcançar a realização total é preciso aquietar a mente, trazendo-a para o agora. Somente com a superação do tumulto dos pensamentos oscilantes entre passado e futuro, a matéria-prima da ansiedade e da distração, o homem consegue a visão clara sobre si mesmo e o mundo. E essa hipótese vem sendo testada - e aprovada - no Ocidente por pesquisadores e especialistas de diversas áreas, entre eles os psicólogos. O terapeuta e consultor paulistano Roberto Ziemer, por exemplo, descobriu o potencial curador dessas teorias desde que começou a se interessar por abordagens contemplativas como o budismo, há mais de 15 anos. Hoje, utiliza a técnica em seu consultório e nas empresas onde presta consultoria. Sua experiência sinaliza que acessar chamado “estado de presença” ajuda as pessoas não apenas a se sentirem bem, mas também a descobrir quem verdadeiramente são.

Na entrevista a seguir,  Ziemer fala sobre o estado de presença e as maneiras de alcançá-lo:

O que é estar presente?

Basicamente, é trazer a atenção da mente para aquilo que está acontecendo agora, tanto dentro quanto fora de você. Significa não julgar e aceitar incondicionalmente as situações internas e externas. O caráter revolucionário dessa experiência é que se você ficar no aqui e agora, esse agora muda. Porque sua percepção sobre ele muda. Não colocando resistência, você começa a perceber as possibilidades que o momento presente lhe mostra e começa a construir um futuro realmente positivo.

Ficar totalmente concentrado num programa de televisão ou na tela de um computador é estar presente?

Não. Nesse caso a pessoa está sendo absorvida por uma informação ou uma experiência externa e perde contato com o que está sentindo – ela está sendo absolutamente dominada pelas associações da mente. Um dos fenômenos interessantes é que quando isso acontece perdemos imediatamente o contato com o corpo e com a respiração. E quanto menos respiramos e temos contato com nosso corpo, mais pensamos, porque há menos oxigênio chegando ao cérebro. Existe uma relação direta entre inconsciência corporal, respiração superficial e uma mente muito agitada. Tanto é verdade que a base do ioga e da meditação é nos conscientizar  do corpo e da respiração para permitir que a atenção venha para o presente.

Por que é tão difícil para as pessoas aceitar incondicionalmente o presente?

Porque elas criam expectativas e fantasias, e o momento presente é sempre novo, inesperado, e não se coaduna com essas fantasias. Elas querem fazer com que a situação externa se adapte às suas expectativas, ao invés de fazer o contrário: aceitar a situação externa como a verdade, a realidade. A maioria das pessoas não vive assim. Elas planejam o dia de amanhã, e quando o amanhã chega e não acontece da maneira como elas  esperavam,  começam a ficar irritadas e nervosas. E aí brigam com as pessoas e situações, porque não estão se alinhando com suas expectativas.

Mas como o cidadão que tem de pagar as contas e buscar o filho na escola pode ter uma rotina e montar um plano de ação sem ter expectativas?

Disciplina é fundamental, mas ela não significa que você precisa planejar tudo o que vai acontecer. Você prevê sua atividade, aquilo que é importante ser feito. Mas como isso vai acontecer, você não sabe em detalhes. Por exemplo, buscar o filho na escola é uma atividade. Mas você não sabe se vai encontrar trânsito no caminho, se seu filho vai recebê-lo bem, se você vai estar feliz ou triste quando o buscar. São variáveis que você não controla. A maioria de nós tem a expectativa ingênua de que tudo vai ser perfeito, como planejado. Só esquecemos que não controlamos a realidade, pois somos uma pequena parte dela. Se você levar isso em conta, vai perceber que só tem controle sobre si mesmo – suas percepções, sentimentos e pensamentos. Podemos até influenciar as situações externas, mas jamais controlá-las. E mesmo o autocontrole só é possível se estivermos no presente. Do contrário, não percebemos como estamos funcionando. E quanto menos a pessoa se controla, mais quer controlar os outros. A idéia é: “se eu controlar os outros, não vou precisar me controlar ou a meus próprios sentimentos”, o que obviamente não funciona. 

Por que é tão difícil nos livrarmos das expectativas?

No Ocidente não aprendemos a questionar como a mente funciona, a não ser em seu aspecto racional. Dessa forma, não percebemos que nossa mente é constituída basicamente de hábitos e condicionamentos. Mais de 95% do que pensamos durante o dia é igual ao que pensamos ontem, antes de ontem e assim por diante. Mas a questão central é: quem está pensando de forma tão repetitiva? Trazendo sempre as mesmas questões? Fazendo sempre as mesmas perguntas? E reagindo sempre da mesma forma? É a mente condicionada – pela família, pela sociedade, pela educação. Não a mente mais vasta, explorada com profundidade pelas tradições espirituais tanto do Ocidente quanto do Oriente. Por não termos compreensão do funcionamento pleno da mente, somos dominados por ela. E pagamos um preço muito alto por isso, pois boa parte do que a mente pensa e faz é limitante, destrutivo e repetitivo. E sem conhecê-la, a pessoa acaba acreditando ser a mente. Nesse ponto, ela também acredita ser seus pensamentos, e as crenças que embasam esses pensamentos se tornam verdades. Como você vai questionar uma verdade? Finalmente, a pessoa projeta sua mente sobre o mundo externo, achando que é ele que na verdade a está oprimindo.

Mas a mente ocidental, por ser tão racional, não é justamente questionadora? O que você quer dizer com “verdades”?

Tenho uma cliente que tem uma relação muito difícil com uma enteada. Durante um exercício, perguntei como ela via essa enteada. Ela respondeu: “como uma barata”. Perguntei: “o que você sente por essa barata?”. Ela foi associando: “nojo, vontade de ficar longe” etc. E ela reage diante dessa enteada como se realmente fosse uma barata, porque a mente dela, por meio das associações com o passado, relaciona essa pessoa a uma barata. Como ela não tinha conhecimento sobre este aspecto de si mesmo, não conseguia  perceber que a barata e a enteada são duas coisas diferentes. Quando ela encontrava  ou ouvia falar da enteada, no subconsciente ocorria  a equação: “enteada igual a barata”, o que significa ter nojo e não querer nenhum contato. E é isso que acontece em seu comportamento. Nesse caso, se ela pudesse trazer o foco de sua atenção para o presente, a associação de que a enteada é igual a uma barata não poderia acontecer, porque ou você está consciente da realidade ou você está sendo dominado pelas associações com o passado. Não há espaço para as duas coisas. A atenção é nosso recurso mais escasso. A cada instante você só pode dar atenção a uma coisa, embora a mente fique pulando de assunto a assunto, como um macaco pula de um galho a outro numa árvore.  Quando você está totalmente no presente, as associações com as situações do passado desaparecem. E aí você se torna livre Você não julga ou cria conceitos sobre o outro. O outro é o outro. A grande dificuldade de nossos relacionamentos está justamente em não conseguir ver o outro sem os preconceitos de nosso passado.

Quais são os indicadores para percebermos que não estamos presentes?

O principal é o quão consciente você está do seu corpo, sentimentos e respiração. Se eu perguntar o que está sentindo agora e você não souber na hora, é porque não estava no agora. Se questionar como está sua respiração e sua reação for dar repentinamente uma inspirada profunda, é outro sinal de desconexão. Sua respiração estava presa, porque você estava dentro de um enredo, geralmente não muito agradável, que sua mente estava contando para você. Isso gera opressão. A maioria das pessoas vive ou oprimida pelo passado ou ansiosa pelo que pode acontecer no futuro. Muitos de nós estamos viciados em pensar compulsivamente, preocupados com o futuro, com medo do desconhecido e de sermos pegos desprevenidos pelo momento presente.

E quais são os indicadores para saber que se está no presente?

Sentir o quanto você está em paz.

Existem experiências espontâneas de presença?

Sim. Por exemplo, durante as férias você vê um lindo pôr do sol e de repente todas as preocupações desaparecem. Você se torna aquele pôr do sol e durante alguns segundos, tem uma experiência de eternidade, porque o agora leva você para a sensação de que não existe mais o tempo do relógio. Para a maioria das pessoas, isso acontece como lampejos, mas elas logo perdem esse estado de presença, não o exploram e nem tentam expandi-lo. E há as pessoas que nunca têm isso, porque possuem um grande medo. Elas preferem o mundo da negatividade e da conformidade ao conhecido do que viver uma experiência nova que não sabem aonde vai terminar.

Há situações que favorecem essas experiências?

Sim. Contato com a natureza. Questionar quem você é. Começar a aceitar o fato de que talvez você não seja sua mente. Praticar técnicas de concentração e meditação, no início com a orientação de alguém que já domine essas práticas. Transformar alguns momentos de seu dia numa arte contemplativa. Se for pintar, por exemplo, não apenas pinte com o objetivo definido de terminar um quadro. Esteja totalmente concentrado no que está fazendo. Isso vale para tudo: se está escovando os dentes, apenas escove. Não planeje o que vai fazer depois. Ao comer, perceba como você deglute e o alimento que escolheu para ingerir. Não faça comentários mentais ou crie outras experiências ao mesmo tempo. Trazer a atenção para o presente abre a possibilidade para que você perceba que pode aproveitar muito mais a vida estando aqui e agora. Você reconhece o nível de amizade que estabelece com você mesmo observando o quão à vontade se sente ficando sozinho, em silêncio, sem fazer nada. O passado já foi e o futuro você não sabe como vai ser. Quem você é está aqui e agora. É a única coisa que você sabe.

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Gustavo Prudente é jornalista. Contato:
gustavoprudente@superig.com.br
www.todamaneira.zip.net


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