| Música Popular Brasileira
Se Porém Fosse Portanto |
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Santa Tereza
Cores da minha infância
Cheiro de Essência
Gosto e vontade
Ruas cortadas
Brilho de um bonde
Trilho de onde vem a saudade
Pego o bonde e bocejo
Desço a rua e gracejo
Eu me lembro que aqui foi bom
Tinha tanto moleque
Tinha samba de breque
Tempo faz...
Subo uma ladeira contra o vento
Volto à esquina e encontro o tempo
Já não tem porque correr
E fico ali olhando e vendo, revivendo...
Agora que é hora de ir embora
Tudo o que aqui termina
Só na foto vai ficar
E na chuva fina
Lama grossa
Minha nossa
Ai que vontade eu tenho de ficar
Se Porém Fosse Portanto
Se trezentos fosse trinta
O fracasso era um portento
Se bobeira fosse finta
E o pecado sacramento
Se cuica fosse banjo
Água fresca era absinto
Se centauro fosse anjo
E atalho labirinto
Se punhado fosse penca
Se duzentos fosse vinte
Se tulipa fosse avenca
E assistente fosse ouvinte
Armadilha era ornamento
Se rochedo fosse vento
Cabra vivo era defunto
Se porém fosse portanto
Vinho branco era tinto
Se marreco fosse pinto
Alegria era quebranto
Se projeto fosse planta
Simpatia era instrumento
Se almoço fosse janta
E o descuido fosse tento
Se pudim fosse pulenta
E São Bento fosse santo
Dona Benta fosse bonita
E o capeta sacrossanto
Se a dezena fosse um cento
E a cotia fosse anta
Se São Bento fosse bento
E dona Benta fosse santa
Demolição
As telhas já estão pesando
Sobre esta casa cansada
Em silêncio ela espera
A hora de ser julgada
Avenidas se debruçam
Sobre a casa condenada
A casa é muito grande
Uma casa não é nada
Uma casa é só o rosto
De um sorriso de criança
De uma noite de agonia
De um dia de esperança
De um vazio de ternura
Que nem chega a ser lembrança
Ode Marítima
Sim vou de viagem
Nessa busca
Na miragem
Desse corpo
Que me chama
Que me assusta
Que me frustra
Que me rói
É tudo limo e certo
O teu ventre
O mar desperto
Os teus braços
Mil sargaços
Nos teus flancos
Febres
Tempestades a domar
Escravo das correntes
Dessas algas
Nessas costas calmas
Longas arranhadas
De arrecifes e coral
Eu fui me agarrar
Exausto, desigual
E nos teus lábios densos
Nessas praias que eu pisei
Eu fui naufragar
Gritando meu amor
Teu corpo
Minha queixa
Não me deixa
Me fascina e assim
Pra sempre agoniado
Atirado em teus abismos
Eu me perco para nunca
Mais voltar
A Noite
A noite não tem mandados
A noite não tem patrão
A noite só tem escuro
A noite só tem paixão
A noite não tem estradas
Que quebram na nossa mão
A noite só tem estrelas
A noite só tem paixão
A noite espinho no peito
A noite um beijo qualquer
A noite o corpo no leito
A noite de uma mulher
Na noite o gosto de sangue
Na noite o ouro no azul
Na noite a cana e o mangue
Da América do Sul
A noite não tem castigo
Nem medo de punição
A noite é o melhor amigo
E só tem perdão
A noite só tem paixão...
Só paixão...
Saudade de Amar
Deixa eu te dizer amor
Que não deves partir
Partir nunca mais
Pois o tempo sem amor
É uma pura ilusão
E não volta mais
Se pudesses compreender
A solidão que é
Te buscar por aí
Amando devagar
A vagar por aí
Chorando a tua ausência
Vence a tua solidão
Abre os braços e vem
Meus dias são teus
É tão triste se perder
Tanto tempo de amor
Sem hora de adeus
Ó volta aqui nos braços meus
Não haverá adeus
Nem saudade de amor
E os dois sorrindo a soluçar
Partiremos depois
Ieramá
Ieramá
Ieramá quer dizer má hora
Em má hora Catarina
Em má hora fui pro mar
Ieramá diz é má hora
Em má hora fui pro mar
Uma estrela me chamou
Cinco pontas a brilhar
E eu no vento a velejar
Essa estrela dentro d'água
Pra você eu fui buscar
Ieramá, Ieramá
Com maré de muito amor
Volto em vento e vela fina
Tenho a estrela do luar
Mais teu riso Catarina
Lá no monte fui morar
Ieramá, Ieramá
Ieramá diz é má hora
E a estrela que era mar
Em má hora Catarina
Só brilhou pra te levar
Três Marias
Eu deixo para a menina
Filha de pai tão formoso
O cavalo mais fogoso
Carrossel, roda gigante
Sonhos meus de purpurina
Eu deixo para a menina
Uma promessa de amores
Duas fontes de alegria
E no céu as três Marias
Ah eu deixo pra menina
Tenho potes de surpresas
Tenho caixas de beleza
Um baú de miudezas
E um vidro de botão
Pode ser que quando creça
Tudo então desapareça
Mas só peço que não esqueça
Da varinha de condão
Desembolada
Eu sou uma grande menina
Sou uma mulher e tanto
Eu não vou cair em pranto
Por coisa tão pequenina
Disfarça no dedilhado
Esse verso tá maroto
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Pra quem quer tirar um côco
Você começou errado
É estrangeiro engasgado
Com a pamonha do cabôclo
É o destro atrapalhado
Com a viola do canhoto
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Pode ser que noutro porto
Você seja cortejado
Mas aqui no meu reinado
Você é um peixe morto
Vá arrebanhar seu gado
Se organize meu garoto
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Você tá falando torto
Porque anda despeitada
Tá com uma inveja danada
De me ver nesse conforto
Passe bem muito obrigado
Que eu já tenho outro broto
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Você tá ficando louco
Presunçoso ou perturbado
Eu lhe conto o meu ditado
Se quiser fique com o trôco
Pras ladeiras do meu fado
Eu escolho o meu piloto
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Você fala mas seu rosto
Tá ditando outro ditado
Vê se chega pro outro lado
Se não quer ter um desgosto
Se 'cê não tomar cuidado
Vai ter um filho de bôto
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Já andei que nem um louco
Também sofri um bocado
Quem esteve apaixonado
Já provou de tudo um pouco
Já mandei o meu recado
Quem quiser que mande outro
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Olha só a cara do rôto
Falando do esfarrapado
Maria
Hoje amada minha
Hoje no céu a lua
Parecia a imagem tua
Toda nua
Toda nua
Ai Maria
Coisa pura
Coisa impura
Coisa cheia de doçura
E mais ainda
Coisa linda, linda, linda...
Deixa eu te dizer amor
Como é linda a tua cor
Linda é a poesia
Que há no nome de Maria
Carregadinho de flor
Lindo é teu langor
Ah! Como eu queria
Ouve só Maria
É tudo lindo
É tudo amor
O Sim Pelo Não
Que sonhos virão deste enredo
Que dramas, que medos
Que doces lembranças
Que amor andará esquecido
Negado, perdido
No seu coração
Do canto soprado no vento
Quem sabe o momento
Quem sabe a razão
Do rosto sereno
Quem sabe a loucura
Da boca cerrada
Quem sabe a paixão
Da noite quem sabe a brancura
Da fruta madura
Quem sabe o amargor
Dos mares tranqüilos
Quem sabe os perigos
Quem sabe os mistérios
Desse nosso amor
Terceiro Amor
O primeiro amor já passou
O segundo amor já passou
Como passam os afluentes
Como passam as correntes
Que desencontram do mar
Como qualquer atitude
Também passa a juventude
Que nem findou de chegar
Como passam as gaivotas
Como passam as derrotas
Ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
E tantos muitos amigos
Sem deixar nenhum sinal
como passam os conselhos
Como passam os espelhos
Fantasias carnavais
Inocências perdidas
Como passam avenidas
Corredores, temporais
A correnteza dos rios
Como passam os navios
E a gente acena do cais
Página feita por Paulo
Filho.
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